O avanço do oceano sobre áreas costeiras brasileiras deixou de ser um cenário distante e passou a integrar o planejamento urbano e econômico do país, pois o aumento do nível do mar já representa um risco concreto para capitais litorâneas e importantes polos logísticos, com a elevação das marés e a erosão costeira alterando de forma duradoura o desenho de várias cidades à beira-mar.
Por que o nível do mar está subindo de forma acelerada?
A palavra-chave nesse debate é elevação do nível do mar, que permite relacionar dados de satélite, medições locais e modelos climáticos para estimar quanto cada trecho do litoral brasileiro pode ser afetado. Em regiões de baixa altitude, qualquer variação de poucos centímetros pode transformar ruas e bairros inteiros em áreas sujeitas a inundações recorrentes ou permanentes.
A ciência climática descreve dois mecanismos principais para explicar a subida do oceano: a expansão térmica da água aquecida e o derretimento acelerado de geleiras continentais, como as da Groenlândia e da Antártida. Em 2024, os oceanos elevaram o nível global em 5,9 mm — bem acima da média anual de 3,4 mm registrada entre 1993 e 2024 —, com dois terços desse aumento puxados pela expansão térmica, invertendo a tendência das décadas anteriores, em que o derretimento do gelo era o principal fator.
Como a inércia térmica mantém a elevação do nível do mar?
Relatórios baseados em cenários do IPCC mostram que a elevação do mar continua mesmo se as emissões globais forem reduzidas nas próximas décadas. Isso ocorre por causa da inércia térmica do sistema climático: o planeta leva muito tempo para responder plenamente ao aquecimento já acumulado na atmosfera e nos oceanos.
Projeções do 6º Relatório de Avaliação do IPCC (AR6), disponibilizadas pela NASA, indicam que o nível do mar pode subir entre 0,28 m e 0,55 m até 2100 no cenário de baixas emissões (SSP1-1.9), e entre 0,63 m e 1,02 m no cenário de emissões muito altas (SSP5-8.5), tomando como referência a média de 1995 a 2014. Para um país com extensa e densamente povoada faixa costeira, como o Brasil, isso significa lidar com impactos em parte inevitáveis nas próximas décadas. Planejamento urbano, seguro habitacional, obras de drenagem e revisão de códigos de construção tornam-se essenciais para reduzir perdas econômicas e sociais futuras.
Quais cidades brasileiras estão mais expostas ao avanço do oceano?
A ferramenta de projeção de nível do mar da NASA — a NASA Sea Level Projection Tool —, cruzada com dados de topografia e subsidência, indica que a vulnerabilidade não é uniforme ao longo do litoral. Terrenos baixos e planos, próximos à maré alta, sofrem primeiro, especialmente onde o solo está afundando por causas naturais ou antrópicas.
No Brasil, algumas cidades aparecem de forma recorrente em estudos sobre risco de inundação costeira, por combinarem densidade populacional, atividades estratégicas e alta exposição física:
- Recife (PE): considerada pelo IPCC a 16ª cidade mais vulnerável do mundo e a mais exposta entre as capitais brasileiras. Com altitude média de apenas 4 metros, 44% do território corre risco de inundação; a subsidência causada pela extração de água subterrânea faz o solo afundar enquanto o mar sobe — efeito que, segundo estudo publicado na revista Nature Climate Change, torna o avanço da água entre três e quatro vezes mais severo do que a média global para populações costeiras.
- Santos (SP): forte presença portuária e bairros baixos pressionados por ressacas mais intensas; estudos indicam risco de até 5% de seu território ser submerso ainda neste século.
- Rio de Janeiro (RJ): setores da Barra da Tijuca, Recreio, Zona Oeste e ilhas urbanizadas sujeitos à invasão de marés; projeções apontam elevação entre 19 cm e 24 cm até 2059, dependendo do cenário de emissões.
- São Luís (MA): erosão costeira e marés amplas ameaçam áreas históricas e residenciais.
Quais soluções podem reduzir o risco nas áreas costeiras brasileiras?
Diante da tendência de subida do nível do mar, a engenharia costeira e o planejamento urbano buscam reduzir danos por meio de estruturas rígidas e soluções baseadas na natureza. A escolha depende de ondas, marés, tipo de solo, valor ambiental e forma atual de ocupação urbana.
Como a subida do mar afeta a economia e a vida cotidiana?
O impacto econômico é direto em cidades portuárias e polos turísticos, como Santos e Rio de Janeiro, que precisam adaptar píeres, canais e sistemas de proteção contra ressacas. Essas obras exigem investimentos elevados, planejamento de longo prazo e integração com políticas de adaptação climática e seguros.
Cidades mais expostas tendem a combinar diferentes alternativas de adaptação costeira, articulando monitoramento do nível do mar, governança local e financiamento estável:
- Obras estruturais: diques, muros de contenção, comportas e bombeamento para proteger áreas abaixo do nível do mar.
- Engordamento de praias: adição controlada de areia para ampliar a faixa de praia e dissipar a energia das ondas.
- Infraestrutura verde: restauração de manguezais, recifes e marismas como barreiras naturais contra erosão.
- Reordenamento urbano: revisão de códigos de construção, restrição à ocupação de áreas de risco e realocação planejada.
No dia a dia, o avanço do oceano agrava desigualdades sociais em comunidades instaladas em manguezais, palafitas ou dunas frágeis, mais expostas a marés extremas e tempestades. Com isso, cresce o número de pessoas deslocadas por motivos climáticos, exigindo políticas de habitação, reassentamento e proteção social continuada.