Em 1563, os jesuítas José de Anchieta e Manoel da Nóbrega chegaram à aldeia de Iperoig para negociar com os tupinambás liderados por Cunhambebe. Anchieta ficou refém por quatro meses e, enquanto aguardava o desfecho, escreveu o célebre Poema à Virgem nas areias da praia. O acordo que nasceu ali, a Paz de Iperoig, é considerado o primeiro tratado de paz das Américas. A aldeia virou vila em 1637 e depois se tornou Ubatuba, nome que em tupi pode significar “lugar de muitas canoas”.
Do porto do café à Capital do Surfe
No século XIX, a Baía de Ubatuba chegou a ser o porto mais movimentado da Capitania de São Vicente, escoando café do Vale do Paraíba. O Sobradão do Porto, único casarão remanescente desse período, foi tombado pelo Condephaat em 1985 e hoje abriga a Secretaria de Turismo. Com a abertura de estradas e o deslocamento da produção para Santos, Ubatuba entrou em declínio econômico, até que o turismo redesenhou a cidade.
O surfe chegou em 1967, com os irmãos Paulo e Ricardo Issa. Em 1972, Paulo fundou a primeira associação de surfe e realizou o primeiro Festival Brasileiro do esporte. A tradição rendeu a Ubatuba o título de Capital do Surfe e revelou nomes como Filipe Toledo, campeão mundial da World Surf League.
Qualidade de vida entre a serra e o mar
O IBGE registra IDH de 0,751 e população de 92.981 habitantes (Censo 2022). Mais de 80% do território está dentro dos limites do Parque Estadual da Serra do Mar, com mais de 47 mil hectares de Mata Atlântica preservada. Essa proporção é uma das maiores entre municípios brasileiros.
A cidade abriga quatro comunidades quilombolas (Caçandoca, Camburi, Fazenda da Caixa e Sertão do Itamambuca), quatro aldeias indígenas de origem tupi-guarani e cerca de 30 comunidades caiçaras. A Unisul e escolas técnicas oferecem formação local. O custo de vida sobe na alta temporada, mas fora dela, Ubatuba mantém ritmo de cidade pequena com infraestrutura de destino turístico consolidado.
O que fazer em 102 praias e mais de 20 ilhas?
O litoral se divide em duas faces: o norte, mais selvagem, com praias cercadas de mata, e o sul, com praias de acesso fácil e infraestrutura para famílias.
- Ilha Anchieta: sete praias de águas cristalinas, trilhas pelas ruínas do antigo presídio (1908-1955) e base do Projeto Tamar. Limite de 1.020 visitantes por dia. O parque abriga um dos primeiros parques subaquáticos do Brasil.
- Praia de Itamambuca: ondas fortes para surfe, rio desaguando no mar e vegetação nativa até a areia. Sedia etapas de campeonatos internacionais.
- Ilha das Couves: acesso controlado (máximo 531 pessoas por dia), ideal para mergulho livre em águas transparentes.
- Trilha das Sete Praias: 6 km de caminhada pela Mata Atlântica com mirantes panorâmicos e enseadas isoladas.
- Cachoeira do Prumirim: queda d’água cercada de vegetação densa, a poucos minutos da praia homônima.
- Núcleo Picinguaba: trilhas na mata, imersão na cultura caiçara e acesso a praias selvagens no extremo norte.
Quem busca as melhores praias de Ubatuba, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Vamos Fugir Blog, que conta com mais de 297.589 visualizações, onde Lígia e Ulisses mostram roteiros incríveis pelo litoral de São Paulo:
Frutos do mar na panela caiçara e fandango no terreiro
A culinária segue a tradição caiçara: peixe fresco, camarão, lula e mariscos preparados com banana, farinha de mandioca e temperos da costa. O Mercado de Peixes, no centro, é ponto de encontro entre pescadores e moradores. A Rua Guarani concentra restaurantes, sorveterias e lojas de artesanato, funcionando como centro da vida noturna.
O Fandango Ubatubano, com viola, machete, rabeca e pandeiro, é a expressão musical da cultura caiçara. A Festa do Divino Espírito Santo, celebrada em julho, mistura fé, tainha assada na brasa e procissões que percorrem o litoral há mais de 150 anos.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O clima tropical litorâneo úmido garante calor o ano inteiro, mas as chuvas são frequentes, especialmente no verão. O apelido “Ubachuva” não é exagero: o índice pluviométrico chega a 2.520 mm por ano.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. O período seco (jun-ago) é o mais indicado para trilhas longas.
Como chegar ao litoral norte paulista?
Ubatuba fica a 220 km de São Paulo e a 320 km do Rio de Janeiro. O trajeto mais comum sai pela Rodovia Presidente Dutra até Taubaté e desce a serra pela SP-125 (Oswaldo Cruz), cerca de 3h30 fora da alta temporada. A alternativa é pela Rodovia dos Tamoios (SP-099) até Caraguatatuba e depois pela Rio-Santos. Ônibus partem do Terminal Tietê com a Pássaro Marron, em viagem de aproximadamente 4h30.
Onde o primeiro tratado de paz encontra a próxima onda
Ubatuba carrega na areia a marca de Anchieta e na água a energia de uma das costas mais preservadas do Brasil. São 102 praias, quilombos vivos, aldeias indígenas e uma mata que cobre a serra até a beira do mar. Tudo isso a pouco mais de três horas de São Paulo.
Você precisa descer a serra pela Oswaldo Cruz, sentir o ar mudar de temperatura e encontrar Ubatuba no fundo do vale, onde a história do continente começou com um acordo de paz escrito na areia.