A megacidade linear The Line, na Arábia Saudita, passou nos últimos anos de uma ideia apresentada em renderizações futuristas para um canteiro de obras em pleno deserto, integrando o megaprojeto Neom, voltado à diversificação econômica do país, à criação de um polo tecnológico e urbano em larga escala e ao teste de um novo modelo de urbanismo de alta densidade no meio ambiente desértico.
O que é a cidade linear The Line?
A The Line é um conceito urbano que concentra moradia, trabalho, lazer e transporte em uma linha de cerca de 170 quilômetros de extensão, 500 metros de altura e 200 metros de largura. A meta é que até 9 milhões de residentes vivam ao longo desse eixo, distribuídos em estruturas modulares sobrepostas, com bairros organizados como um corredor contínuo conectado por transporte público.
O projeto prevê que The Line seja alimentada integralmente por fontes renováveis de energia, como parques solares e eólicos, além de usinas de dessalinização de água do mar com baixas emissões. A lógica é reduzir deslocamentos longos, concentrar serviços a poucos minutos de caminhada e substituir automóveis por trens de alta velocidade, diminuindo a pegada ambiental durante a operação da cidade.
The Line pode funcionar como uma cidade sustentável?
O discurso oficial destaca a ambição de neutralidade de carbono na fase de uso, com infraestrutura projetada para minimizar desperdícios e eliminar ruas para carros. A cidade aposta em transporte público automatizado, integração de áreas verdes em terraços, recuperação de água para reuso e sistemas de monitoramento digital para otimizar consumo de energia, água e recursos.
Para tornar essa cidade linear funcional e sustentável na rotina diária, alguns elementos são considerados essenciais e interdependentes:
- Energia renovável em grande escala, com fornecimento estável mesmo em picos de demanda.
- Sistema de transporte rápido, ligando extremidades da linha em cerca de 20 minutos.
- Gestão inteligente de água, com dessalinização, armazenamento e reaproveitamento.
- Planejamento urbano de alta densidade, mantendo serviços essenciais próximos aos moradores.
Quais são os desafios tecnológicos e ambientais de The Line?
Um dos pontos mais debatidos é o sistema de transporte de alta velocidade previsto para percorrer o eixo da cidade, que exigiria velocidade média superior a 500 km/h. Hoje, trens comerciais mais rápidos operam abaixo desse patamar, enquanto tecnologias como levitação magnética avançada ou tubos de baixa pressão ainda estão em estágio experimental e levantam dúvidas sobre custo, segurança e manutenção.
No campo ambiental, o paredão espelhado contínuo no deserto pode refletir calor de forma intensa, alterar condições térmicas locais e interferir em rotas de fauna terrestre e aves migratórias. Especialistas também alertam para o impacto no escoamento de água superficial e subterrânea e para o alto volume de concreto, aço e vidro, exigindo estratégias robustas de mitigação, corredores ecológicos e monitoramento contínuo da biodiversidade.
Qual é o impacto financeiro e político do projeto The Line?
The Line integra um pacote de iniciativas cujo orçamento total projetado para Neom é estimado em centenas de bilhões de dólares, com possibilidade de atingir a casa do trilhão. Esse montante depende de recursos internos da Arábia Saudita e da capacidade de atrair investimentos estrangeiros, influenciada por fatores como governança, transparência, estabilidade regulatória e reputação internacional.
Do ponto de vista político, a megacidade funciona como vitrine de modernização e inovação tecnológica para o país, reforçando a agenda da Visão 2030. Ao mesmo tempo, organizações internacionais acompanham o projeto em temas como uso de terras, compensações a comunidades afetadas e padrões trabalhistas, o que pode impactar o ritmo das obras e a disposição de parceiros globais em se envolver.
Qual é o futuro e o grau de incerteza em torno de The Line?
A distância entre o conceito apresentado e a execução completa é grande, e projetos de infraestrutura bem menores frequentemente sofrem revisões de prazo e orçamento. Em uma cidade linear de 170 quilômetros, com altura equivalente a arranha-céus e tecnologia de transporte de ponta, a complexidade técnica, financeira e regulatória tende a multiplicar esses riscos.
Analistas consideram cenários em que a construção avance por segmentos, ajustando extensão, altura ou densidade populacional conforme a demanda, o desempenho operacional e os resultados ambientais. À medida que as primeiras estruturas ganham forma no deserto saudita, permanece em aberto se The Line se consolidará como novo modelo urbano, servirá como laboratório de inovação em escala reduzida ou ficará restrita a uma versão muito menor que o desenho original.