O desfile da Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí, na noite de domingo (15/2), reacendeu o debate sobre a relação entre Carnaval, política e memória recente do país ao homenagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e satirizar episódios marcantes da história política brasileira.
Como Michel Temer foi retratado no desfile da Acadêmicos de Niterói?
No desfile, Michel Temer foi retratado na comissão de frente da Acadêmicos de Niterói em uma encenação da transição de poder após o impeachment de 2016. Um ator caracterizado como o ex-presidente retirava a faixa de Dilma Rousseff e a entregava a um palhaço, que representava Jair Bolsonaro.
A cena reforçou a narrativa de turbulência institucional e sintetizou, em linguagem carnavalesca, disputas sobre legitimidade política. Esse tipo de alegoria, comum na Sapucaí, condensa em poucos segundos leituras complexas sobre processos históricos e governos recentes. Veja o momento da sátira (Reprodução/X/Poder360):
🎽 Desfile pró-Lula mostra Temer tomando faixa de Dilma
— Poder360 (@Poder360) February 16, 2026
💃 Um dos carros alegóricos da Acadêmicos de Niterói mostrou a posse de Dilma Rousseff e, na sequência, um boneco representando Michel Temer tomando a faixa presidencial. A escola de samba homenageia a história de Lula na… pic.twitter.com/aC6xjK2K1Y
Como Michel Temer reagiu sobre a sátira no Carnaval?
Em sua nota pública, Temer afirmou que a sátira política no Carnaval faz parte da tradição brasileira e declarou-se defensor da liberdade de expressão e da liberdade artística. Ele argumentou que não faz sentido exigir rigor histórico de um enredo de escola de samba, reconhecendo o caráter alegórico da festa.
Ao mesmo tempo, o ex-presidente afirmou ver distorções sobre seu governo, especialmente em relação às reformas aprovadas em sua gestão. Ele também aproveitou a ocasião para criticar o que chamou de “ilusionismo na Esplanada”, referindo-se a políticas econômicas e fiscais que, em sua avaliação, estimulariam a irresponsabilidade fiscal.
Quais pontos Temer destaca ao defender seu legado político e econômico?
Na nota, Temer buscou se reposicionar no debate público ao relacionar o que aconteceu na Sapucaí com decisões tomadas em Brasília durante seu governo. Ele retomou o slogan da “ponte para o futuro” para defender reformas como a trabalhista, a do ensino médio e a da previdência como avanços estruturantes.
Para organizar sua argumentação, o ex-presidente enfatizou alguns eixos que, segundo ele, têm sido mal interpretados ou esquecidos no debate político recente:
- Defesa da liberdade artística e de expressão no Carnaval como espaço tradicional de crítica;
- Crítica ao que classifica como distorções sobre o legado de seu governo e suas reformas;
- Ênfase nas reformas trabalhista, do ensino médio e da previdência como medidas estruturais;
- Alerta para efeitos de políticas fiscais consideradas lenientes sobre juros e dívida pública.
De que forma Carnaval, liberdade artística e disputa política se articulam?
O episódio envolvendo a Acadêmicos de Niterói e a fala de Michel Temer recoloca o Carnaval como espaço de disputa simbólica e construção de memória política. As escolas de samba historicamente abordam temas como ditadura, direitos sociais, racismo e desigualdade, muitas vezes por meio de sátiras e alegorias.
Ao dizer que não faz sentido cobrar rigor histórico num enredo, Temer reconhece esse caráter simbólico, mas aponta um suposto aumento de homenagens personalistas em detrimento da crítica social mais abrangente. Esse diagnóstico alimenta debates sobre se a festa reforça narrativas de grupos no poder ou mantém uma tradição de questionamento amplo ao sistema político.
Quais são os impactos da nota de Temer?
A manifestação de Michel Temer após o desfile pró-Lula funciona também como movimento de reposicionamento público em 2026. Ao comentar a caricatura, ele busca registrar na memória coletiva a ideia de que seu governo teria sido responsável por ajustes estruturantes na economia brasileira.
Para observadores do cenário político, a combinação entre sátira carnavalesca e resposta oficial evidencia que a disputa por interpretações dos últimos anos permanece aberta. A Sapucaí oferece versões resumidas da história, enquanto notas e entrevistas tentam detalhar, contestar ou reafirmar essas narrativas no debate público e nas redes sociais.