Uma transformação silenciosa vem chamando atenção no litoral sul de São Paulo. Em Cananéia, a combinação entre forças naturais, fragilidades do solo e mudanças climáticas está abrindo caminho para o surgimento de uma nova ilha no Estreito do Melão.
Como está ocorrendo a formação de uma nova ilha no litoral de São Paulo?
A chamada formação de nova ilha no litoral de São Paulo resulta de um processo erosivo intenso no Estreito do Melão, área que integra o Parque Estadual Ilha do Cardoso. Em 2024, a faixa de terra mais estreita tinha cerca de 100 metros de largura e, um ano depois, passou a aproximadamente 20 metros, indicando avanço acelerado.
Na prática, a força da água vem escavando o solo e abrindo um caminho que tende a permitir a entrada do mar para dentro do estuário. Quando essa barreira de terra for totalmente rompida, parte da Ilha do Cardoso tende a ficar isolada, caracterizando uma nova porção insular, fenômeno natural em muitos ambientes costeiros, mas aqui marcado pela velocidade e pela proximidade de áreas habitadas.
Quais mudanças já são visíveis na paisagem e na rotina das comunidades?
Além do estreitamento da faixa de areia, já existe na região um canal com cerca de 170 metros de largura e 3 metros de profundidade. Esse canal contribuiu para o isolamento terrestre de moradores, que passaram a depender mais de embarcações para deslocamentos básicos, como acesso a escolas, serviços de saúde e mercados.
Relatos de moradores, dados técnicos e decisões judiciais indicam que o processo deixou de ser apenas um alerta distante e passou a ser um cenário concreto. Em poucos anos, a erosão reduziu drasticamente a faixa de terra que separa o mar do interior do estuário, alterando atividades de pesca, turismo de base comunitária e o uso tradicional do território pelas famílias caiçaras.
Quais são os principais impactos ambientais e sociais em Cananéia?
A possível criação de uma nova ilha em Cananéia não representa apenas uma mudança no mapa. O fenômeno afeta diretamente o ecossistema do estuário e as comunidades caiçaras, especialmente manguezais, áreas de reprodução de espécies marinhas e proteção natural da costa, além de influenciar correntes, salinidade e qualidade da água.
Com a abertura de um novo canal de comunicação entre o mar e o estuário, aumenta o risco de assoreamento em outros trechos, com acúmulo de sedimentos, redução de profundidade e interferência em rotas de navegação e pesca artesanal. Ao mesmo tempo, famílias vêm alterando hábitos e até mudando de endereço, em um processo de deslocamento que tende a se intensificar se a erosão mantiver o ritmo atual:
- Risco aos manguezais: perda de áreas de abrigo de peixes, crustáceos e aves.
- Mudança nas correntes: alteração na circulação de água dentro do estuário.
- Dificuldade de acesso: isolamento de comunidades por via terrestre.
- Pressão sobre serviços públicos: necessidade de transporte alternativo e adaptação de estruturas.
Como o poder público está reagindo à erosão no Estreito do Melão?
Diante do avanço da erosão e da iminência de mudança na configuração do litoral de São Paulo, o tema chegou ao Judiciário. Em 2 de fevereiro, a Justiça estabeleceu prazo de 45 dias para que o Governo do Estado de São Paulo apresentasse um plano de contingência voltado para o Estreito do Melão e a Ilha do Cardoso.
Esse plano engloba medidas emergenciais e ações de médio prazo para mitigar riscos humanos, ambientais e de infraestrutura. Entre elas, destacam-se o mapeamento detalhado das áreas mais suscetíveis, a definição de rotas alternativas de acesso, o apoio logístico a famílias em áreas de risco, o monitoramento contínuo da largura do estreito e dos canais, além da proteção reforçada a manguezais e outros ecossistemas sensíveis do parque estadual. Veja imagens da Ilha do Cardoso (Reprodução/Instagram/@vaiviver):
O que essa nova ilha pode representar para o futuro do litoral paulista?
Se o rompimento total da faixa de terra no Estreito do Melão se confirmar, a nova ilha em formação deverá consolidar uma nova configuração para aquele trecho da costa. Isso pode significar rotas diferentes para navegação local, redefinição de limites de uso dentro do parque estadual e necessidade de revisão de planos de manejo e ocupação do solo.
Especialistas em dinâmica costeira destacam que erosão, assoreamento e formação de ilhas fazem parte da evolução natural de ambientes marinhos, mas exigem monitoramento constante em áreas habitadas ou protegidas. No caso de Cananéia, decisões atuais sobre proteção ambiental, adaptação das comunidades caiçaras e planejamento costeiro tendem a influenciar não apenas a paisagem, mas também a forma como o litoral sul paulista será vivido pelas próximas gerações.