Um episódio pouco conhecido da Segunda Guerra Mundial no Brasil voltou à tona com a localização dos destroços do navio cargueiro Tutoya, afundado após ser atacado por um submarino alemão em 1943 entre Peruíbe e Iguape, no litoral de São Paulo. O achado reacende o interesse pela presença de submarinos nazistas na costa brasileira e pela memória de marinheiros e civis que perderam a vida naquele período.
Como o navio Tutoya foi encontrado no litoral de São Paulo?
O grupo responsável pela descoberta é formado por mergulhadores experientes e entusiastas de histórias submersas, que já haviam identificado outros dois naufrágios próximos à Ilha da Queimada Grande: os navios Araponga e Irmãos Gomes. A localização do Tutoya exigiu ainda mais pesquisa, cruzamento de dados e paciência com o mar agitado e a visibilidade reduzida da região.
A busca ganhou força quando a instrutora de mergulho Tatiana Mello encontrou uma referência ao cargueiro em um jornal e passou a estudar documentos antigos e registros da Marinha. As fontes eram imprecisas, dividindo-se entre Ilhabela e a região de Iguape, o que motivou novas consultas a arquivos navais, relatos de veteranos e mapas náuticos históricos. Veja os detalhes dessa operação no vídeo divulgado por Tatiana Mello:
Como os mergulhadores localizaram os destroços do navio?
Para avançar na investigação, Tatiana procurou o marinheiro Clayton Aloise, conhecido na comunidade de pescadores do litoral sul paulista. Ele passou a registrar coordenadas e pontos comentados por pescadores, que relatavam áreas com “ferro no fundo” ou estruturas desconhecidas, criando um mapa informal de possíveis naufrágios.
Com essas marcações em mãos, o grupo partiu da Serra do Guaraú, em Peruíbe, levando GPS, sonar e equipamentos de mergulho técnico. Após mais de duas horas de varredura sem resultados, somente na terceira área marcada surgiu um relevo diferente, e a leitura refinada do sonar revelou um contorno artificial compatível com um grande casco metálico.
Qual é a história do navio Tutoya e de seu naufrágio na guerra?
Construído na Inglaterra em 1913, o navio foi inicialmente batizado de Mitcham, depois renomeado Uno e, em 1929, passou a se chamar Tutoya ao ser integrado à navegação brasileira. Era um cargueiro típico da primeira metade do século XX, voltado ao transporte de mercadorias pela costa e por rotas internacionais, incluindo portos do Norte e Nordeste.
Com a Segunda Guerra Mundial, submarinos alemães passaram a atacar navios mercantes na costa brasileira, e muitos cargueiros navegaram com luzes apagadas e próximos à linha da costa para tentar escapar. Em uma madrugada de 1943, o Tutoya cruzou a rota do submarino alemão U-513 próximo a Peruíbe, foi iluminado para identificação e acabou torpedeado em 1º de julho de 1943, resultando na morte de sete pessoas.
Por que a descoberta do Tutoya é importante para a memória histórica?
Ao localizar os destroços do navio Tutoya no litoral de São Paulo, os mergulhadores acrescentaram um novo ponto ao mapa de naufrágios brasileiros e ajudaram a resgatar uma parte pouco abordada da Segunda Guerra Mundial no país. A confirmação ocorreu em 26 de dezembro de 2025, após comparação de medidas, características de motorização e detalhes técnicos com dados históricos.
No fundo do mar, o grupo registrou imagens, tirou medidas e observou detalhes estruturais, como dimensões do casco, tipo de máquina e indícios da carga, que coincidiam com os documentos. Para pesquisadores como Maurício Carvalho, o achado valoriza a história de marinheiros brasileiros, oferece um memorial simbólico às vítimas e fortalece projetos de educação histórica ligados ao litoral.
O que ainda pode ser revelado sobre o Tutoya?
A descoberta do Tutoya abre espaço para novas investigações sobre a atuação de submarinos alemães no Brasil e sobre outros naufrágios ainda não identificados. Relatos de embarcações desaparecidas entre Peruíbe, Iguape e a Ilha da Queimada Grande podem, com novas buscas, ajudar a reconstituir rotas e a dimensão real das perdas brasileiras.
Além do aspecto histórico, o cargueiro submerso torna-se objeto de estudo ambiental, pois naufrágios funcionam como recifes artificiais e abrigam grande biodiversidade. Por isso, o mapeamento e a visitação precisam ser acompanhados de cuidados de segurança, preservação do patrimônio subaquático e monitoramento científico do ecossistema local.