O Ministério Público Federal em Minas Gerais moveu uma ação civil pública contra a TV Globo por causa da forma como a emissora pronuncia a palavra “recorde” em sua programação, levantando um debate sobre a influência da mídia na língua portuguesa e seu caráter de patrimônio cultural.
Por que o MPF processou a Globo?
O foco da ação está na influência da Globo como referência linguística, sobretudo em programas de grande audiência, como Jornal Nacional, Globo Esporte e Globo Rural. Para o procurador Cléber Eustáquio Neves, a pronúncia veiculada estaria em desacordo com a norma culta.
Segundo o MPF, a forma como apresentadores dizem “recorde” induziria milhões de telespectadores a reproduzir uma pronúncia considerada inadequada. A emissora, por ora, não comenta o caso e ainda não apresentou sua defesa formal. As informações são da coluna Outro Canal, da Folha de SP.
Como o MPF descreve a pronúncia correta de “recorde”?
Na petição, o procurador afirma que “recorde” é palavra paroxítona, com tonicidade em “cor”, devendo ser pronunciada como “reCORde”, sem acento gráfico. A Globo, porém, é acusada de reforçar a sílaba “ré”, aproximando-se de uma pronúncia proparoxítona.
Para sustentar o pedido, o MPF anexou gravações de programas em que narradores, âncoras e repórteres adotam a forma “RÉ-cor-de”. O debate evidencia o conflito entre norma culta, uso corrente e pronúncias já consolidadas na fala cotidiana e esportiva.
Quais pedidos o MPF faz à Justiça contra a emissora?
O Ministério Público Federal formula pedidos que vão além da mera discussão linguística, envolvendo correção pública e indenização financeira. A tese é de que a língua portuguesa integra o patrimônio cultural imaterial do país, exigindo proteção especial.
Para organizar os principais pontos da ação, o MPF destaca pedidos e argumentos centrais apresentados à Justiça:
- Retificação em rede nacional explicando a pronúncia considerada adequada de “recorde”.
- Pagamento de indenização de R$ 10 milhões por dano ao patrimônio cultural imaterial.
- Reconhecimento do papel social da Globo como difusora de modelos de linguagem.
- Observância rigorosa da norma culta em telejornais e programas esportivos.
Qual o debate sobre a classificação linguística de “recorde”?
O ponto técnico central é a classificação de “recorde” como paroxítona, com sílaba tônica em “cor”: “reCORde”. Gramáticas tradicionais costumam registrar essa forma, mas o uso massivo de “RÉ-cor-de” em transmissões esportivas reforçou outra variante na fala cotidiana.
Especialistas em linguística já apontam que o português brasileiro convive com variações de pronúncia, inclusive em palavras estrangeiras aportuguesadas. O caso expõe a tensão entre descritivismo linguístico, uso real da língua e a tentativa de impor um padrão único pelos meios de comunicação.
Quais são os próximos passos do processo judicial sobre a Globo?
O processo ainda está em fase inicial, e a Globo foi notificada antes do carnaval. A partir da citação, a emissora tem prazo para apresentar sua defesa, podendo usar laudos linguísticos, argumentos sobre liberdade de expressão e ausência de dano concreto à língua.
Caberá à Justiça avaliar se a pronúncia questionada justifica intervenção judicial e indenização bilionária. O caso também deve servir de referência para futuras discussões sobre a responsabilidade de veículos de comunicação na preservação e na evolução dos padrões linguísticos no Brasil.