A decisão de encerrar as atividades da maior fábrica de pneus da Argentina marca um novo capítulo na crise industrial do país, com o fechamento da Fate em Buenos Aires na quarta-feira (18/2) e a demissão de mais de 900 trabalhadores em um cenário de forte tensão política, econômica e sindical.
Quais os impactos do fechamento da maior fábrica de pneus da Argentina?
Fundada há mais de 80 anos, a Fate tinha capacidade de produção em torno de 5 milhões de pneus por ano e ocupava posição de destaque na indústria argentina. O encerramento das operações ocorre em um período de queda na atividade econômica, alta ociosidade nas fábricas e reestruturação das políticas públicas do governo Javier Milei.
A administração Milei defende maior abertura ao comércio internacional e flexibilização das regras trabalhistas, o que afeta diretamente setores intensivos em mão de obra, como o automotivo. Nesse contexto, empresas com menor competitividade estrutural encontram mais dificuldades para se adaptar às novas condições de mercado e competição externa.
O que explica o fechamento da maior fábrica de pneus da Argentina?
O fechamento da Fate foi atribuído pela própria empresa à perda de competitividade diante do avanço das importações de pneus. Entre 2023 e 2025, as importações cresceram cerca de 34%, enquanto os preços no mercado interno caíram 42%, comprimindo margens e tornando inviável manter a operação em Buenos Aires.
Em nota, a fabricante afirmou que a decisão está ligada a mudanças nas condições de mercado e que cumprirá as indenizações previstas em lei aos mais de 900 demitidos. A companhia destacou que tentou ajustes internos, mas a concorrência internacional e a demanda enfraquecida reduziram drasticamente sua capacidade de reação, refletindo um processo mais amplo de desindustrialização no país.
Como a crise econômica e a reforma trabalhista afetam o setor de pneus?
O anúncio da Fate ocorreu na mesma semana em que centrais sindicais organizaram uma greve geral de 24 horas contra a reforma trabalhista proposta por Javier Milei. O projeto prevê mudanças em direitos, custos trabalhistas e regras de contratação, com o objetivo declarado de reduzir encargos e atrair investimentos em setores exportadores.
Para a indústria de pneus e automotiva, somam-se inflação elevada, retração do consumo interno, dólar valorizado e maior entrada de produtos importados, especialmente da Ásia. Especialistas em economia industrial alertam que uma abertura rápida, sem mecanismos de transição, pressiona fábricas com forte base trabalhista, levando à redução de produção, receitas e, em casos extremos, ao fechamento de plantas.
Quais são os impactos do fechamento da Fate na economia e nos trabalhadores?
O fechamento da maior fábrica de pneus da Argentina afeta diretamente mais de 900 trabalhadores, agora dependentes de indenizações e de eventuais políticas públicas de apoio ao emprego. Sindicatos pressionam por intervenção estatal para reverter ou mitigar a decisão, alegando risco de agravamento social na região metropolitana de Buenos Aires.
Além dos empregados diretos, a paralisação da planta repercute em toda a cadeia produtiva, atingindo fornecedores, transportadoras, serviços de manutenção e logística. Esse efeito em cascata tende a afetar especialmente pequenos e médios negócios com menor fôlego financeiro, bem como a arrecadação fiscal e a dependência de pneus importados:
- Emprego direto: mais de 900 demissões em uma única unidade;
- Efeito na cadeia: queda de pedidos a fornecedores de borracha, aço e componentes;
- Arrecadação fiscal: possível redução de impostos ligados à produção e ao consumo;
- Mercado interno: maior dependência de pneus importados para montadoras e reposição.
Como a indústria de pneus na Argentina pode ser recuperada?
O futuro do setor de pneus depende da combinação entre reforma trabalhista, política de importações, comportamento do câmbio e incentivos à produção local. Representantes sindicais defendem créditos e medidas temporárias de proteção para reativar parte da capacidade hoje ociosa, enquanto analistas pedem previsibilidade regulatória e acordos setoriais.
Debates atuais incluem incentivos fiscais, negociação entre empresas, governo e sindicatos, programas de qualificação profissional e estratégias industriais de longo prazo para o setor automotivo. A experiência da Fate passa a ser referência nas discussões sobre abertura econômica, proteção à indústria nacional e modernização das relações de trabalho na Argentina.