O debate sobre a descriminalização de drogas voltou ao centro das atenções após o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), defender em julgamento nesta terça (10/2) que pequenas quantidades de cocaína e maconha para consumo próprio não sejam tratadas como crime, reacendendo discussões sobre o papel do Direito Penal na política de drogas.
Como Gilmar Mendes analisa a descriminalização de pequenas quantidades de drogas?
Na 2ª Turma do STF, o caso analisado trata de uma mulher sem antecedentes criminais, flagrada no Rio Grande do Sul com 0,8 grama de cocaína e 2,3 gramas de maconha, quantidades que, segundo Gilmar Mendes, indicam claramente uso pessoal. Para o ministro, não há elementos que apontem tráfico ou vínculo com o crime organizado, o que afasta a necessidade de punição criminal.
Ao votar pelo arquivamento do processo, Gilmar Mendes defendeu que o porte de pequenas porções de drogas para consumo próprio deve ser tratado como questão de saúde pública, e não apenas como tema penal. Essa perspectiva busca afastar o uso automático do Direito Penal em situações de baixa lesividade, priorizando respostas menos estigmatizantes para o usuário. As informações são da Revista Oeste.
Como o Tema 506 influencia o tratamento do porte para uso pessoal?
O ministro ancora sua posição nos parâmetros definidos pelo STF no Tema 506 de repercussão geral, julgado em junho de 2024, que fixou o entendimento de que o porte de até 40 gramas de maconha ou o cultivo de até seis plantas fêmeas para consumo pessoal não configura crime. Agora, Mendes sustenta a possibilidade de estender a mesma lógica a outras drogas, como a cocaína, quando houver comprovação de uso individual.
Nessa linha, a descriminalização de pequenas quantidades conecta-se a pilares constitucionais, como a proteção da intimidade, a priorização de políticas de saúde e o princípio da proporcionalidade. A ideia central é que o porte restrito ao uso pessoal não representa ameaça suficiente à ordem pública para justificar condenação criminal ou pena privativa de liberdade.
Quais critérios sustentam a abordagem de saúde e proteção de direitos?
Para fortalecer essa visão, o debate jurídico tem destacado fundamentos que buscam equilibrar liberdade individual, proteção da saúde e racionalidade punitiva. Abaixo, estão alguns critérios frequentemente mencionados em votos, pareceres e estudos sobre a política de drogas:
- Intimidade: o consumo em pequena escala é visto como decisão privada, sem alcance coletivo relevante, salvo em casos de risco concreto a terceiros.
- Saúde: o foco recai sobre tratamento, prevenção, redução de danos e assistência psicossocial, substituindo a lógica puramente repressiva.
- Proporcionalidade: sanções criminais são consideradas excessivas quando não há indícios de tráfico, violência ou financiamento de organizações criminosas.
Ao defender essa interpretação, Gilmar Mendes reforça a possibilidade de revisão de outros processos envolvendo pequenas porções de drogas ilícitas, desde que enquadrados nesses critérios. Isso pode favorecer uma aplicação mais uniforme da jurisprudência e reduzir decisões contraditórias em tribunais de diferentes regiões do país.
O que ainda depende de decisão final na 2ª Turma do STF?
Apesar do voto favorável de Gilmar Mendes, o julgamento não foi concluído, pois o ministro André Mendonça pediu vista para analisar o caso em maior profundidade. Ele adiantou que, em tese, concorda que as quantidades apreendidas indicam uso particular, mas entende ser necessário discutir com cautela a extensão da descriminalização a substâncias além da maconha.
Com o pedido de vista, a decisão final da 2ª Turma permanece suspensa até o retorno do processo à pauta, momento em que o colegiado poderá decidir pelo arquivamento definitivo e pela consolidação dos critérios já utilizados no Tema 506. O resultado tende a orientar julgamentos semelhantes em instâncias inferiores e influenciar a linha que separa usuário de traficante no país. Veja como foi a sessão (Reprodução/YouTube/STF):
Quais impactos a descriminalização para consumo próprio pode gerar?
A posição apresentada por Gilmar Mendes tem potencial para reduzir o número de processos criminais contra usuários, desafogando varas criminais, delegacias e sistemas prisionais superlotados. Na segurança pública, a priorização de casos ligados ao tráfico e ao crime organizado pode redirecionar recursos e esforços para delitos de maior gravidade.
Em termos sociais, a descriminalização de pequenas quantidades de cocaína e maconha pode evitar registros criminais de pessoas sem histórico de violência, reduzindo estigmas e prejuízos duradouros na vida profissional e familiar. Ainda assim, permanecem controvérsias sobre limites quantitativos, diferenciação entre usuário e traficante e estratégias de prevenção ao uso abusivo, temas que continuarão em debate à medida que novas decisões do STF forem proferidas.