A homenagem da escola de samba Acadêmicos de Niterói ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Carnaval do Rio de Janeiro, passou de celebração festiva a tema sensível no governo, sendo vista por aliados como um movimento com potencial de desgaste eleitoral em 2026.
Como o desfile de Lula no RJ virou preocupação eleitoral?
Segundo relatos de bastidores em Brasília, interlocutores próximos ao Planalto avaliam que a exposição de Lula na Sapucaí reforçou um clima de pré-campanha em momento de fortes limites legais. Mesmo com a tentativa de reduzir a participação direta do presidente, a narrativa pública girou em torno de possível antecipação da disputa presidencial.
A homenagem, antes tratada como ato simbólico, passou a ser analisada sob prisma jurídico e eleitoral. Aliados relatam que comunicação e articulação política não dimensionaram o efeito da presença de Lula na Marquês de Sapucaí, elevando a preocupação com a interpretação da Justiça Eleitoral sobre eventual campanha antecipada. As informações são do analista Matheus Teixeira, em entrevista à CNN.
Como o governo tentou evitar risco de campanha antecipada?
Convites a ministros para desfilar com a Acadêmicos de Niterói ampliariam a associação entre governo e enredo, mas foram revistos após alertas da AGU. O órgão indicou risco de enquadramento do evento como promoção eleitoral indevida, já que o enredo exaltava a figura de Lula e seu legado político em ambiente de forte polarização.
A primeira-dama, Janja, também foi orientada a não participar ativamente, e sua presença em carro alegórico foi cancelada, mantendo Lula restrito a um camarote. Ainda assim, o episódio foi lido por adversários como parte de estratégia de pré-campanha, e internamente a avaliação é de que o impacto político foi subestimado. “A percepção de alguns aliados é que o próprio governo não teve a devida dimensão do que isso iria representar nas eleições desse ano e no embate público da política”, disse Teixeira.
Como o TSE pode interpretar a homenagem a Lula?
Especialistas em direito eleitoral ressaltam que o Tribunal Superior Eleitoral costuma considerar o contexto político e o conjunto de atos ao avaliar possíveis irregularidades.
O caso reacende comparações com decisões do TSE em 2022 contra práticas de Jair Bolsonaro, e aliados acompanham se haverá o mesmo rigor em 2026. Para organizar internamente a análise, auxiliares resumem assim os principais pontos em discussão:
- Ponto jurídico central: exaltação da figura de Lula em ambiente de grande visibilidade nacional e ampla repercussão na mídia.
- Elemento de pressão: comparação com decisões do TSE contra Bolsonaro, envolvendo lives, eventos oficiais e falas de teor eleitoral.
- Risco político: narrativa de favorecimento ou de perseguição, dependendo da linha interpretativa adotada pelo tribunal.
Por que o desfile afetou a relação com evangélicos?
Outro ponto sensível foi a representação dos evangélicos em uma das alas da escola, associada a uma lata de conserva, o que irritou lideranças religiosas. Esse eleitorado, já mais distante do PT e mais alinhado ao bolsonarismo, reagiu de forma negativa à alegoria, vista como estereotipada e desrespeitosa.
No Planalto, avalia-se que o episódio complica a tentativa de aproximação com igrejas evangélicas, buscada desde o início do mandato. Para setores do governo, o desfile falou sobretudo a quem já é simpático a Lula, reforçando a polarização e oferecendo munição a críticos em um segmento estratégico. “Dialogou mais com o próprio eleitorado petista que já exalta o presidente Lula, e não precisava de mais essa demonstração dessa trajetória dele”, explicou o analista.
Quais são os efeitos políticos do desfile para 2026?
Entre aliados, o balanço predominante é considerado desfavorável, com mais repercussão negativa que ganho de imagem. A homenagem, que poderia ser lida como reconhecimento artístico, acabou conectada diretamente à disputa presidencial, dada a visibilidade nacional e o protagonismo de Lula no enredo.
Articuladores defendem agora maior rigor na avaliação de aparições públicas de Lula em grandes eventos, com atenção a jurídicos e a segmentos sensíveis, como evangélicos. A orientação é priorizar iniciativas que dialoguem com públicos indecisos ou distantes, evitando ações que apenas mobilizem a base petista e reabram debates sobre uso político da cultura popular.