Publicada nessa quinta-feira (12/2), a descoberta de um sistema solar incomum pela Agência Espacial Europeia (ESA), usando dados do satélite Cheops, trouxe novos elementos ao debate sobre como os planetas se formam e evoluem, ao revelar em torno da estrela LHS 1903 um conjunto de quatro planetas que foge ao padrão clássico.
Como o sistema LHS 1903 desafia o modelo clássico de formação planetária?
No modelo tradicional, planetas rochosos tendem a se formar nas regiões mais internas, próximas à estrela, enquanto gigantes gasosos surgem mais longe, onde há menos radiação e mais material volátil disponível, como observado no Sistema Solar. O sistema da estrela LHS 1903, porém, apresenta uma sequência diferente, considerada atípica e cientificamente instigante pelos pesquisadores.
Segundo a equipe da Universidade de Warwick, o sistema LHS 1903 abriga quatro planetas em uma ordem pouco comum: um planeta rochoso interno, seguido por dois gigantes gasosos e, na região mais externa, outro planeta rochoso. Essa organização contrasta com o padrão mais frequente, em que mundos rochosos ficam “na frente” e gigantes gasosos “atrás”, em termos de distância orbital.
Por que a formação dos planetas em LHS 1903 é considerada tão diferente?
Em modelos tradicionais, a formação começa em um disco de gás e poeira ao redor de uma estrela jovem, com calor intenso nas regiões internas evaporando líquidos e expulsando gases, favorecendo planetas rochosos. Nas áreas mais frias e distantes, o gás pode se acumular em grandes quantidades, permitindo o crescimento de gigantes gasosos semelhantes a Júpiter e Saturno.
No sistema LHS 1903, simulações numéricas testaram cenários como colisões de grande escala ou migrações orbitais intensas, em que planetas se formam em uma região e depois se deslocam. Esses cenários foram considerados pouco prováveis, e o quadro mais compatível é o de formação em etapas, em que cada planeta surge em momentos diferentes, refletindo uma evolução temporal complexa do disco protoplanetário.
O que significa a formação em etapas e o conceito de “late bloomer”?
Nessa interpretação, o planeta rochoso mais distante seria um tipo de “recém-chegado” cósmico, formado tardiamente quando já não havia gás suficiente no disco para originar outro gigante gasoso. Esse comportamento o caracteriza como um “late bloomer”, isto é, um objeto que se consolida após a fase principal de formação do sistema.
Esse modelo em etapas sugere que o disco protoplanetário pode ter passado por fases de reabastecimento e esgotamento de material, com mudanças graduais de densidade e composição. Assim, o sistema LHS 1903 torna-se um caso-chave para estudar como o tempo relativo de formação afeta a massa, a composição e a posição orbital dos planetas.
O que o sistema LHS 1903 revela sobre a diversidade?
Para integrantes da missão Cheops, como Maximilian Günther, sistemas como o de LHS 1903 funcionam como laboratórios naturais para testar teorias sobre a origem dos planetas, incluindo a formação “de dentro para fora”, proposta há cerca de dez anos. Nesse cenário, os planetas se organizam progressivamente a partir das regiões internas do disco, com novos corpos surgindo em fases subsequentes, conforme o material disponível se transforma.
Esse tipo de sistema solar incomum indica que o arranjo do Sistema Solar pode não ser o padrão dominante na Via Láctea, mas apenas uma entre muitas possibilidades de arquitetura. Isso impacta diretamente como os cientistas buscam e classificam exoplanetas e revisam estimativas sobre a frequência de mundos potencialmente habitáveis, inclusive ao redor de estrelas anãs vermelhas como LHS 1903:
- Diversidade de arquiteturas: A galáxia pode abrigar sistemas com ordens planetárias variadas, desafiando classificações rígidas.
- Revisão de modelos: Teorias de formação precisam considerar cenários em múltiplas etapas e discos com evolução temporal complexa.
- Busca por exoplanetas: Métodos de detecção podem ser ajustados para incluir configurações fora do padrão clássico Sol–rochosos–gasosos.
Quais são os próximos passos no estudo?
O sistema LHS 1903 deve continuar a ser monitorado por telescópios espaciais e observatórios terrestres, para refinar a medição das massas, tamanhos e possíveis atmosferas dos quatro planetas. Observações adicionais, inclusive com instrumentos de alta precisão espectroscópica, podem revelar pistas sobre a composição química dos gigantes gasosos e a presença de voláteis no planeta rochoso externo.
Entre as prioridades estão refinar as órbitas com novas observações de trânsito, analisar variações sutis no brilho da estrela para identificar interações gravitacionais e comparar LHS 1903 a outros sistemas com planetas rochosos externos. À medida que novas descobertas semelhantes surgirem, o catálogo de sistemas solares incomuns crescerá, ajudando a repensar o que é realmente típico na formação de planetas e na arquitetura de sistemas planetários.