O aumento do uso das chamadas canetas emagrecedoras no Brasil trouxe à tona uma discussão sobre segurança e acompanhamento médico, com notificações de mortes suspeitas e possíveis casos de pancreatite relacionadas a esses medicamentos no sistema VigiMed da Anvisa.
O que são as canetas emagrecedoras e como atuam no organismo?
As chamadas “canetas emagrecedoras” são medicamentos aplicados por injeção subcutânea, em geral uma vez por semana ou diariamente, dependendo do produto. Pertencem, em sua maioria, ao grupo dos agonistas do GLP-1, hormônio produzido no intestino após as refeições, que regula a glicose, estimula a insulina e aumenta a saciedade.
Entre os princípios ativos mais utilizados estão semaglutida, tirzepatida, dulaglutida, liraglutida e lixisenatida, presentes em medicamentos como Ozempic, Mounjaro, Wegovy, Trulicity, Saxenda, Victoza, Rybelsus e Xultophy. Muitos foram desenvolvidos para diabetes tipo 2, mas passaram a ser empregados também no controle de peso em pacientes que atendem critérios clínicos específicos.
Como foram os casos de pancreatite associada às canetas emagrecedoras?
Entre 2020 e 2025, o VigiMed registrou seis mortes suspeitas e 145 notificações de possível pancreatite após uso de canetas emagrecedoras, podendo chegar a 225 ocorrências ao incluir dados de pesquisas clínicas. A Anvisa afirma que ainda não há comprovação de nexo causal definitivo, mas reconhece a necessidade de monitoramento contínuo.
A pancreatite é uma inflamação do pâncreas que pode ser aguda ou crônica, geralmente com dor abdominal intensa, náuseas e vômitos, e em casos graves pode levar à morte. As bulas desses medicamentos já citam pancreatite como evento adverso incomum, e os relatos envolvem diferentes marcas e apresentações, exigindo análise individualizada de cada suspeita.
Quais medidas de segurança vêm sendo adotadas por Anvisa e fabricantes?
Diante do aumento de notificações e da alta procura por medicamentos para emagrecer, a Anvisa passou a exigir, em abril de 2025, a retenção da receita médica para a venda de canetas emagrecedoras. Com isso, a compra depende de prescrição e controle mais rigorosos, reduzindo o acesso sem acompanhamento adequado.
As bulas no Brasil mencionam eventos adversos como pancreatite e orientam interrupção imediata do uso diante de suspeita, com avaliação médica urgente. Fabricantes, como a Eli Lilly (responsável pelo Mounjaro), afirmam monitorar continuamente a segurança, reforçam o uso de produtos originais e recomendam supervisão profissional ao longo de todo o tratamento.
Quais cuidados médicos e sinais de alerta exigem maior atenção?
Especialistas ressaltam que o uso de agonistas de GLP-1 deve ser parte de um plano de tratamento mais amplo, que inclua alimentação equilibrada e acompanhamento periódico. Antes de iniciar a terapia, é importante avaliar histórico de pancreatite, cálculos biliares, consumo de álcool, níveis de triglicérides e uso de outros medicamentos.
Nesse contexto, diferentes atores do sistema de saúde têm papéis específicos para reduzir riscos e identificar precocemente possíveis eventos adversos, inclusive pancreatite e outras complicações metabólicas:
- Pacientes: relatar dor abdominal intensa, náuseas persistentes, vômitos, febre ou icterícia, e nunca ajustar doses por conta própria.
- Médicos: avaliar fatores de risco, solicitar exames quando indicados, orientar sobre sinais de alerta e reavaliar a continuidade do tratamento diante de suspeita de pancreatite.
- Farmacêuticos: conferir e reter a receita, orientar sobre aplicação correta, armazenamento e importância do seguimento médico.
Como reduzir os riscos ao usar canetas emagrecedoras?
Para uso mais seguro, recomenda-se que as canetas emagrecedoras sejam prescritas somente após avaliação individualizada, evitando a automedicação ou o uso estético sem respaldo científico. O acompanhamento regular permite ajustar doses, acompanhar perda de peso, revisar exames e suspender o fármaco se surgirem sinais sugestivos de inflamação pancreática.
Boas práticas incluem uma avaliação médica completa antes do início, seguimento periódico, atenção contínua a sintomas novos e uso exclusivo de produtos registrados, adquiridos em estabelecimentos autorizados. O monitoramento de casos de pancreatite e outros eventos adversos integra as políticas de farmacovigilância e orienta decisões mais informadas de médicos e pacientes.