Durante décadas, o futebol cumpriu no Brasil um papel que ia muito além do esporte. Era válvula de escape, anestesia social e, goste-se ou não, um eficaz instrumento de “pão e circo”. O próprio presidente Lula já admitiu publicamente sentir falta do tempo em que partidas de futebol eram suficientes para fazer o povo esquecer, ainda que momentaneamente, dos problemas do dia a dia. Esse tempo, porém, ficou para trás.
A ascensão das redes sociais mudou o jogo. A população se politizou, passou a comparar narrativas, checar versões e discutir poder, orçamento, impostos e privilégios em tempo real. O cidadão comum deixou de ser apenas espectador e passou a ser ator do debate público. Para a esquerda, acostumada a conduzir o discurso cultural com relativa hegemonia, isso se transformou em um enorme problema estratégico.
Sem o futebol como anestésico social eficaz, a nova aposta passou a ser o entretenimento “engajado”: grandes shows financiados direta ou indiretamente com dinheiro público, produções cinematográficas lançadas com forte aparato internacional e campanhas explícitas para emplacar artistas alinhados ideologicamente em premiações globais. O caso de Fernanda Torres, celebrado politicamente antes mesmo de qualquer consagração popular massiva, e agora Wagner Moura com O Agente Secreto, seguem exatamente esse roteiro.
O investimento é pesado. Não se trata apenas de arte ou cultura, mas de construção de narrativa. O objetivo é claro: criar símbolos, heróis e vitórias simbólicas que possam ser convertidas em capital político. O problema é que o entusiasmo não se espalha. Essas conquistas circulam quase exclusivamente dentro da própria bolha progressista, funcionando mais como autoafirmação ideológica do que como mobilização popular real.
Enquanto isso, o brasileiro médio continua preocupado com inflação, segurança, custo de vida, desemprego disfarçado e serviços públicos precários. Para esse público, prêmios internacionais, tapetes vermelhos e discursos politizados de artistas pouco dialogam com a realidade concreta. O espetáculo existe, mas a plateia já não aplaude como antes.
A tentativa de substituir o futebol por shows, filmes e premiações revela mais desespero do que estratégia. É o reconhecimento tácito de que o velho “pão e circo” perdeu eficiência. A diferença é que agora o povo não apenas assiste, ele comenta, critica, ironiza e confronta.
No fim das contas, a narrativa não está sendo construída para o país real, mas para consumo interno de um grupo que precisa acreditar que ainda controla o imaginário popular. Só que a sociedade mudou. O povo acordou. E não é um troféu dourado ou um show milionário que vai fazê-lo voltar a dormir.
Por Júnior Melo