A aprovação do lenacapavir injetável pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), nesta segunda (12/1), marca uma nova etapa na prevenção do HIV no Brasil. O medicamento de longa duração passa a integrar o grupo de estratégias de profilaxia pré-exposição (PrEP), oferecendo alternativa às pílulas diárias já utilizadas no sistema de saúde, em um cenário em que ainda são registradas mais de 1 milhão de novas infecções por HIV por ano no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Como o lenacapavir injetável funciona na prevenção do HIV?
O lenacapavir é um antirretroviral de ação prolongada, administrado por injeção subcutânea duas vezes ao ano para profilaxia pré-exposição em adultos e adolescentes a partir de 12 anos, com peso mínimo de 35 kg. Antes do início do uso, é obrigatório o teste para HIV, garantindo que a pessoa esteja HIV negativa, pois o medicamento é voltado à prevenção, e não ao tratamento.
Diferentemente das PrEP orais diárias, que exigem uso contínuo de comprimidos, o lenacapavir concentra a prevenção em aplicações semestrais realizadas em serviços de saúde. Essa característica favorece pessoas com dificuldade de manter rotina diária de medicação e pode reduzir falhas associadas ao esquecimento de doses orais.
Quais são os principais resultados de eficácia do lenacapavir?
Estudos clínicos publicados em 2024 na revista New England Journal of Medicine (NEJM) mostraram resultados expressivos em contextos de alta incidência de HIV. Em um acompanhamento com mais de 2 mil mulheres cisgênero em Uganda e na África do Sul, a eficácia do lenacapavir na prevenção do HIV-1 foi descrita como geral de 100% no período avaliado, levando à interrupção precoce do estudo por superar critérios de eficácia.
Em outro estudo, com 3.265 participantes de diferentes gêneros, apenas dois voluntários em uso do medicamento contraíram o vírus, reforçando o potencial da droga como prevenção de longa duração. A OMS passou a classificar o lenacapavir como a melhor alternativa preventiva após uma eventual vacina contra o HIV, recomendando seu uso como opção adicional de PrEP para populações-chave.
Quais são as recomendações atuais para o uso do lenacapavir na PrEP?
A OMS orienta que o lenacapavir seja utilizado duas vezes ao ano como parte de uma estratégia combinada de prevenção ao HIV, sem substituir preservativos, testagem regular e tratamento imediato em caso de diagnóstico positivo. O foco está em pessoas em maior vulnerabilidade, como trabalhadores do sexo, homens que fazem sexo com homens, mulheres cis em contextos de alta incidência e populações com acesso limitado aos serviços de saúde.
As diretrizes também reforçam o papel dos testes rápidos para HIV, que devem ser realizados antes de cada aplicação para assegurar que apenas pessoas HIV negativas recebam o medicamento, evitando risco de resistência em casos de infecção já instalada. Essas recomendações se articulam com ações de educação em saúde e com a oferta de diferentes modalidades de PrEP, incluindo esquemas orais diários e sob demanda.
Quais impactos o lenacapavir pode trazer para a prevenção do HIV e o acesso?
A chegada do lenacapavir injetável é vista como oportunidade para acelerar a redução de novas infecções e apoiar a meta global de acabar com a Aids como ameaça à saúde pública até 2030. Organismos como o Unaids destacam o potencial do medicamento para ampliar a proteção, sobretudo entre mulheres e populações com menor adesão à PrEP oral diária, desde que haja políticas de acesso equitativo.
O custo estimado de até US$ 40 mil por pessoa ao ano em alguns mercados é um dos principais desafios para sua disseminação em países de baixa e média renda. No Brasil, a aprovação pela Anvisa abre debate sobre incorporação ao SUS, definição de grupos prioritários e logística de aplicação, o que pode redefinir a organização da prevenção combinada ao HIV no país.