O debate sobre o envio de militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) à Venezuela ganhou força após o ataque dos Estados Unidos ao país vizinho, no último sábado (3/1). A possível participação de uma delegação brasileira em atos pró-Nicolás Maduro em território venezuelano ocorre em meio à tensão diplomática, a diferentes leituras políticas sobre o episódio e a discussões sobre soberania, intervenção estrangeira e solidariedade internacional.
Por que o MST avalia envio de militantes à Venezuela?
Em reunião virtual no domingo (4/1), mais de 50 entidades discutiram respostas ao ataque norte-americano, priorizando a solidariedade ao governo de Caracas e a crítica à intervenção externa.
Segundo Ceres Hadich, dirigente nacional do MST, a frente imediata de ação são protestos em capitais brasileiras, sobretudo em frente a embaixadas e consulados dos Estados Unidos. Somente em um segundo momento, caso avaliem necessário, o envio de militantes ao território venezuelano será considerado como ação direta de apoio político e simbólico.
Como o MST justifica a ação?
O MST afirma manter com a Venezuela relações de “solidariedade clara, definida e pública”, enfatizando seu envolvimento em projetos de produção de alimentos em larga escala para a população venezuelana. Em contexto de crise econômica e sanções, o movimento apresenta essa cooperação como parte de uma estratégia de soberania alimentar e integração latino-americana.
Ceres Hadich destaca que o foco inicial é “denunciar o sequestro, a invasão e as mortes” atribuídas aos Estados Unidos, alinhando-se também à posição de países do Brics que reconheceram a vice-presidente Delcy Rodríguez como liderança legítima. Nesse contexto, a narrativa do MST se organiza em alguns eixos principais que articulam política externa, direitos humanos e solidariedade internacional.
- Defesa da soberania venezuelana.
- Crítica à intervenção militar estrangeira e às sanções.
- Ênfase na solidariedade internacional entre movimentos sociais.
- Apoio à produção de alimentos e a projetos agrários na Venezuela.
Quais os impactos políticos?
Além do MST, dirigentes de PT, PSOL, PCdoB, intelectuais e jornalistas participaram de reunião em 5 de janeiro para monitorar a crise e definir linhas de atuação pública. Entre os presentes estavam José Dirceu, Mônica Valente, Valério Arcary, Juliano Medeiros, Ana Prestes, Breno Altman e o ex-embaixador venezuelano Carlos Ron, que discutiram contatos com autoridades dos Estados Unidos e da Venezuela.
Nesse espaço ficaram evidentes diferenças sobre como se posicionar em relação a Nicolás Maduro e à intervenção norte-americana. Setores do PSOL classificam Maduro como ditador e rejeitam sua defesa direta, embora critiquem a mudança de poder imposta de fora, enquanto o PT e o MST tendem a priorizar a denúncia da intervenção externa, com apoio mais explícito ao governo de Caracas.
Quais são as principais linhas de posicionamento?
No debate interno da esquerda, também houve divergências sobre o alvo central das críticas e a estratégia de comunicação com a sociedade brasileira. Alguns setores preferem concentrar o discurso na responsabilização direta de Donald Trump e da política externa dos Estados Unidos, enquanto outros defendem nacionalizar o debate e expor a direita brasileira que apoia a ação militar:
- Defesa de Maduro e crítica direta a Trump.
- Crítica à intervenção, sem apoio explícito a Maduro.
- Foco na direita brasileira que endossa a ação dos EUA.
Qual o impacto político da possível ida de militantes brasileiros à Venezuela?
A hipótese de o MST enviar militantes à Venezuela para apoiar manifestações pró-Maduro tem implicações na política interna e na arena internacional. No Brasil, o gesto reforça o alinhamento de parte da esquerda com o governo venezuelano e alimenta críticas de setores que veem a iniciativa como ingerência em um conflito sensível e potencialmente desgastante para a imagem do movimento.
Externamente, a presença de militantes brasileiros em atos na Venezuela pode ser usada como demonstração de apoio civil à tese de violação da soberania com a captura de Maduro e seu julgamento em Nova York. À medida que o processo judicial avança, decisões sobre o envio de delegações, o formato dos protestos no Brasil e o discurso adotado pelos grupos de esquerda tendem a influenciar tanto a política externa brasileira quanto o debate sobre o papel dos movimentos sociais em temas internacionais.