Um único trecho de discurso foi suficiente para transformar uma solenidade pública em tema central do debate religioso e político na Colômbia. Ao afirmar nessa quarta-feira (28/1) que Jesus “fez amor” e sugerir que isso poderia ter ocorrido com Maria Madalena, o presidente Gustavo Petro reacendeu discussões antigas sobre a figura de Cristo, os limites do Estado laico e o espaço da fé no discurso de autoridades, em um país majoritariamente cristão onde religião, política e identidade nacional se cruzam com frequência.
Como foi a fala de Gustavo Petro sobre Jesus e Maria Madalena?
Durante o discurso, Gustavo Petro, que se define como católico não praticante e simpatizante da Teologia da Libertação, apresentou uma leitura pessoal sobre a vida de Jesus. Em tom reflexivo, afirmou acreditar que Jesus “fez amor” e acrescentou que “um homem assim não poderia existir sem amor”, mencionando explicitamente Maria Madalena como possível figura desse relacionamento.
Ele também destacou que, em sua interpretação simbólica, Jesus “morreu rodeado de mulheres que o amavam”, em contraste com figuras históricas como Simón Bolívar. Ao enfatizar que Cristo teria apoiado mulheres “até o fim”, aproximou sua fala de discursos ligados à Teologia da Libertação, que desde o século XX relaciona fé, justiça social, defesa dos marginalizados e crítica a estruturas de opressão. Veja a fala do presidente (Reprodução/X/@AssLatam):
President Gustavo Petro of Colombia claims that Jesus had sex with Mary Magdalene. pic.twitter.com/5AnDggbQ0x
— Crazy Ass Moments in LatAm Politics (@AssLatam) January 29, 2026
Como igrejas e líderes religiosos reagiram?
A reação das entidades religiosas foi rápida e articulada, em um contexto em que a doutrina cristã majoritária, tanto católica quanto evangélica, afirma que Jesus viveu em celibato. Para essas tradições, não houve relações sexuais nem vínculos românticos, pois a vida de Cristo teria sido inteiramente dedicada à missão espiritual, como ensinado há séculos em catecismos, sermões e estudos bíblicos.
A Confederação Evangélica da Colômbia classificou as falas de Petro como deturpação da “verdade histórica, bíblica e teológica” e as viu como desrespeito à figura de Jesus Cristo. Já a Conferência Episcopal da Colômbia adotou tom mais institucional, pedindo “respeito, não interferência e proteção das pessoas em suas crenças” e afirmando que declarações de cunho teológico não são atribuição de autoridades políticas no exercício de suas funções.
Como funciona o Estado laico em um país de maioria cristã?
O episódio reacendeu o debate sobre o funcionamento do Estado laico em uma sociedade fortemente cristã. Dados oficiais indicam que cerca de 79% da população colombiana se declara católica e outros 10% se identificam com vertentes cristãs, principalmente igrejas evangélicas e pentecostais, o que significa que quase 9 em cada 10 colombianos têm alguma ligação com tradições cristãs.
Nesse cenário, qualquer comentário de autoridades sobre Jesus, Maria Madalena ou temas de moral religiosa repercute em templos, parlamentos, campanhas eleitorais e políticas públicas. Especialistas destacam que a laicidade convive com forte influência de líderes religiosos em discussões sobre direitos civis, educação, saúde reprodutiva e costumes, intensificando a cobrança por neutralidade simbólica do chefe de Estado.
Quais os impactos da declaração?
No curto prazo, a declaração tende a ser explorada por aliados e opositores em campanhas, redes sociais e disputas locais. Críticos do governo podem reforçar narrativas de desrespeito às tradições cristãs, enquanto grupos ligados à Teologia da Libertação e a movimentos sociais podem tratar o caso como parte de um debate mais amplo sobre leitura histórica da Bíblia e humanização da figura de Jesus.
Além da arena política, o episódio pode estimular debates em comunidades religiosas, faculdades de teologia e espaços acadêmicos sobre os limites entre interpretação simbólica e doutrina consolidada. Em um país de maioria cristã, a forma como autoridades mencionam personagens bíblicos continuará sendo observada de perto por igrejas e fiéis, sobretudo quando isso ocorre em pronunciamentos oficiais amplamente difundidos nas redes sociais.