O lançamento do chamado Conselho de Paz por Donald Trump, em Davos, na Suíça, movimentou a cena diplomática internacional e abriu uma nova frente de debates sobre o papel dos Estados Unidos em conflitos globais, com foco inicial na Faixa de Gaza e possível expansão para outras crises ao redor do mundo.
Como funciona o Conselho de Paz criado por Donald Trump?
O Conselho de Paz lançado por Trump foi desenhado como uma instância política e diplomática para acompanhar negociações, monitorar acordos e propor soluções para conflitos em diferentes regiões, com foco inicial na Faixa de Gaza. A iniciativa foi formalizada nesta quinta-feira (22/1), no Fórum Econômico Mundial, com a presença de cerca de 20 chefes de Estado e de governo, em um cenário que ressaltou o protagonismo norte-americano.
O documento constitutivo foi assinado primeiro pelos governantes aliados que estavam no palco, posicionados ao redor do presidente dos Estados Unidos, em uma mesa instalada em um dos lados do palco, em gesto simbólico de liderança compartilhada, mas centralizada em Washington. Trump descreveu o órgão como um projeto pessoal, criticou a ONU por não usar seu “tremendo potencial” e sugeriu que a combinação entre Nações Unidas e Conselho de Paz poderia criar uma estrutura paralela ou complementar às instâncias multilaterais já existentes.
Quais países apoiam o Conselho de Paz de Trump?
A formação do Conselho de Paz de Donald Trump conta com o apoio de governos de diferentes regiões, mas não tem adesão unânime entre os convidados. Segundo informações do evento e de pronunciamentos anteriores, ao menos 35 de cerca de 50 chefes de Estado e de governo convidados aceitaram integrar o órgão, incluindo aliados próximos da Casa Branca em temas de segurança e política externa.
Entre os países que confirmaram participação, estão Israel, Argentina, Egito, Paraguai, Hungria e Azerbaijão, cujos líderes estiveram presentes na cerimônia em Davos. Outros governos, como França, Noruega e Suécia, rejeitaram a iniciativa e expressaram reservas quanto ao formato, alcance e legitimidade do Conselho. Trump afirmou ainda que Vladimir Putin teria aceitado se unir ao órgão, embora o Kremlin não tenha confirmado oficialmente, enquanto o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva foi convidado, mas não decidiu se o Brasil assumirá um assento.
Como o Conselho de Paz se relaciona com a ONU?
Um dos pontos centrais do debate é a relação do Conselho de Paz com a Organização das Nações Unidas e com a arquitetura de governança já estabelecida. O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou o novo órgão como “amorfo” neste estágio inicial, por ainda não ter estrutura claramente definida, regras transparentes de funcionamento ou mecanismos formais de tomada de decisão.
Apesar das incertezas, Guterres declarou apoiar “estritamente” o trabalho do Conselho na Faixa de Gaza, sinalizando abertura para cooperação, mas com limites bem demarcados. Em Davos, compuseram a junta diretiva do novo órgão figuras diretamente ligadas à política externa recente dos EUA, como o secretário de Estado Marco Rubio, o enviado Steve Witkoff, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e Jared Kushner, reforçando o caráter político e estratégico da iniciativa em torno da agenda de Washington.
Quais podem ser os efeitos do Conselho de Paz?
A criação do Conselho de Paz de Donald Trump levanta dúvidas sobre seu impacto prático na diplomacia global e sobre possível sobreposição com fóruns já existentes. A iniciativa pode funcionar como espaço paralelo em que países alinhados à política externa norte-americana coordenem posições sobre a Faixa de Gaza e outros conflitos, mas sua legitimidade dependerá da adesão de grandes potências e de países emergentes.
Especialistas em relações internacionais destacam alguns pontos que tendem a orientar o debate nos próximos meses, especialmente no que diz respeito à eficácia e à representatividade do novo órgão:
- Legitimidade e representatividade: o grau de adesão de grandes potências e de países do Sul Global será determinante para o peso político do Conselho de Paz.
- Coordenação com a ONU: a forma como o órgão se alinhará ou competirá com o Conselho de Segurança e outras estruturas multilaterais será observada de perto.
- Resultados concretos: avanços em cessar-fogos, negociações ou acordos duradouros em zonas de conflito serão o principal parâmetro para avaliar sua relevância.
- Percepção pública e diplomática: a imagem de fórum de aliados de Washington pode limitar o alcance do Conselho em regiões desconfiadas da liderança norte-americana.