A Ferrovia Bioceânica Brasil-Peru entrou em nova fase, quando o projeto passou a contar com estudos formais de viabilidade conduzidos em parceria entre órgãos brasileiros e instituições chinesas. A proposta é criar um corredor ferroviário ligando o litoral brasileiro, no Atlântico, ao porto de Chancay, no Pacífico peruano, encurtando o caminho de exportação para a Ásia e reorganizando o mapa logístico sul-americano ao conectar áreas produtoras do interior diretamente a terminais de águas profundas.
O que é a Ferrovia Bioceânica Brasil-Peru e qual é seu objetivo?
A Ferrovia Bioceânica Brasil-Peru é concebida como um corredor transcontinental de carga, com extensão estimada entre 3.000 e 4.500 quilômetros, somando os trechos em território brasileiro e peruano. Seu objetivo central é reduzir distâncias e custos no escoamento de produtos como grãos, minério e celulose, hoje dependentes de longas rotas rodoviárias até portos do Sudeste e Sul.
Em vez de seguir apenas até o Atlântico, parte da produção do Centro-Oeste e de novas fronteiras agrícolas, como o Matopiba, teria uma rota alternativa de saída pelo Pacífico. O projeto ganhou contornos mais definidos com a assinatura de um memorando entre a Infra S.A. e o China Railway Economic and Planning Research Institute, prevendo estudos conjuntos de viabilidade técnica, econômica e ambiental.
Como será o traçado da Ferrovia Bioceânica Brasil-Peru?
O traçado em análise prevê a integração de trechos já planejados ou em construção no Brasil, como a FIOL, a FICO e a Norte-Sul. A linha partiria da região de Ilhéus, na Bahia, seguiria pelo oeste baiano, cortaria Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Acre, até alcançar a fronteira com o Peru.
A partir daí, a via cruzaria a Cordilheira dos Andes em direção ao porto de Chancay, construído com forte participação de investimentos chineses e inaugurado em 2024. Esse desenho busca articular áreas agrícolas, polos de mineração e terminais portuários, formando um corredor de exportação mais direto para a Ásia.
Por que a Ferrovia Bioceânica Brasil-Peru interessa ao Brasil e à China?
A expressão ferrovia bioceânica resume o interesse geoeconômico do projeto para Brasil e China. Para o Brasil, a ligação direta ao Pacífico reduziria a dependência de rotas marítimas longas via Canal do Panamá ou Cabo da Boa Esperança, encurtando o tempo até portos asiáticos.
Já para a China, principal parceiro comercial brasileiro, o corredor cria um novo eixo de acesso a commodities agrícolas e minerais e amplia a presença em infraestrutura estratégica na América do Sul. Na prática, a ferrovia funcionaria como espinha dorsal logística, estimulando terminais de transbordo, centros de armazenagem e serviços em cidades do interior.
Quais são os principais desafios técnicos, ambientais e sociais do projeto?
A Ferrovia Bioceânica Brasil-Peru enfrenta obstáculos relevantes em sua implementação, que vão desde a geografia complexa até o licenciamento socioambiental rigoroso. O traçado cruza planaltos, florestas tropicais e a Cordilheira dos Andes, exigindo túneis, viadutos, obras de drenagem e monitoramento permanente.
Veja abaixo os principais desafios técnicos:
- Necessidade de respeitar limites de inclinação e garantir segurança operacional em trechos íngremes.
- Passagem por biomas sensíveis, terras indígenas e unidades de conservação, demandando consultas prévias e mitigação de impactos.
- Definição de rotas alternativas, passagens de fauna e programas de compensação socioambiental robustos.
Quais impactos econômicos e próximos passos são esperados para a ferrovia?
No campo econômico, os estudos apontam para investimentos que podem alcançar dezenas de bilhões de reais, com algumas estimativas chegando a 100 bilhões de dólares ao considerar todas as etapas. A viabilidade depende de garantir volume de carga, marcos regulatórios estáveis e cooperação duradoura entre Brasil, Peru e China.
Se concretizada, a Ferrovia Bioceânica Brasil-Peru pode alterar a competitividade do agronegócio, da mineração e de cadeias industriais ligadas à exportação, redistribuindo o peso econômico entre regiões brasileiras. O projeto permanece em fase de estudos, com foco em detalhamento técnico, avaliação de impactos, modelagem de concessões e estruturação financeira internacional.