A decisão da Advocacia-Geral da União (AGU) de manter sob sigilo o parecer que embasou o veto integral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao chamado PL da Dosimetria reabriu o debate sobre transparência no governo federal e sobre os limites da Lei de Acesso à Informação (LAI), especialmente porque o projeto, que tratava da redução de penas e da revisão de condenações relacionadas aos atos de 8 de janeiro de 2023 e incluía processos envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, havia sido aprovado com ampla maioria na Câmara e no Senado.
Por que o parecer da AGU sobre o PL da Dosimetria está em sigilo?
A AGU sustenta que o sigilo do parecer não viola a Lei de Acesso à Informação e afirma que a restrição não se limita ao PL da Dosimetria. O órgão cita o artigo 19, inciso XVI, da Portaria AGU nº 529, de 2016, que restringe o acesso a pareceres técnicos elaborados em contextos de sanção ou veto presidencial.
Segundo essa interpretação, a divulgação prévia da argumentação jurídica poderia prejudicar a atuação da AGU na defesa da constitucionalidade das normas no Supremo Tribunal Federal (STF), função prevista no artigo 103, parágrafo 3º, da Constituição. Especialistas em transparência, porém, lembram que a LAI prevê acesso às fundamentações oficiais após a publicação da decisão presidencial.
Qual a disputa entre Congresso e Planalto no PL da Dosimetria?
O PL da Dosimetria foi apresentado como resposta às condenações decorrentes dos atos de 8 de janeiro, que envolveram invasões e depredações em Brasília. A proposta buscava ajustar penas, rever dosimetrias e, em alguns casos, abrir caminho para abrandamento das sanções impostas pelo Supremo.
Para a base governista e parte do Judiciário, o texto aprovado poderia ser interpretado como forma indireta de anistia a envolvidos em atos antidemocráticos. Já para setores do Congresso, em especial parlamentares alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, a matéria é vista como correção de supostos excessos nas condenações.
Como o veto presidencial ao PL da Dosimetria será enfrentado no Congresso?
O veto de Lula ampliou a tensão entre Legislativo e Executivo e será analisado em sessão conjunta quando os trabalhos retornarem em fevereiro. O presidente da Câmara, Hugo Motta, afirma que a proposta, aprovada com apoio expressivo nas duas Casas, terá sua sorte definida politicamente no Plenário.
Parlamentares contrários ao governo articulam pressão pela derrubada do veto, enquanto a deputada Caroline de Toni já protocolou requerimento de convocação extraordinária com base no artigo 57 da Constituição, alegando urgência na reavaliação dos direitos de presos pelos atos de 8 de janeiro.
Quais são os efeitos políticos e jurídicos do sigilo?
A manutenção em sigilo do parecer da AGU tem efeitos que vão além do embate imediato entre Planalto e Congresso, ao expor o delicado equilíbrio entre transparência e estratégia institucional. Organizações de acesso à informação defendem que, uma vez publicada a decisão presidencial, o teor dos pareceres deveria ser divulgado para permitir controle social e análise técnica independente.
No campo político, o episódio ocorre enquanto o titular da AGU, Jorge Messias, é citado como potencial indicado ao STF, o que torna sensível sua relação com o Senado. A assessoria informa que ele, por estar de férias, não assinou o parecer, enquanto o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, atua para reduzir o atrito e organizar a análise do veto em momento considerado mais adequado.