Entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho, em uma região marcada por conflitos e clima extremo, surge o projeto do chamado Canal Ben Gurion, uma rota artificial cortando o deserto do Negev, inteiramente em território israelense, pensada para ligar a Europa à Ásia sem passar pelo tradicional corredor controlado pelo Egito e redesenhar o comércio marítimo no século XXI.
O que é o Canal Ben Gurion e por que ele se tornou um tema global?
O Canal Ben Gurion é concebido como um canal marítimo de aproximadamente 250 a 300 quilômetros, com largura estimada entre 150 e 200 metros e profundidade capaz de receber navios de grande porte. A proposta ganhou relevância após interrupções em Suez e instabilidade no Mar Vermelho, reforçando a busca por alternativas para os cerca de 12% do comércio mundial que passam pela região.
Mais longo que o Canal de Suez, o projeto é pensado para ser mais profundo e permitir a passagem de superpetroleiros e grandes porta-contêineres. Para alguns planejadores, mesmo com custo elevado, funcionaria como um “seguro geopolítico” de longo prazo contra bloqueios e gargalos logísticos em rotas já saturadas.
Quais são os principais desafios para construir um canal no deserto do Negev?
A construção de um canal no deserto do Negev envolve obstáculos de engenharia, ambientais, financeiros e de segurança. O terreno apresenta trechos de rocha dura, vales secos e diferenças de relevo que podem exigir escavações profundas e eventuais eclusas ou sistemas de bombeamento entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho.
O traçado provável passaria próximo à Faixa de Gaza e à fronteira com o Egito, áreas de tensão recorrente que demandariam vigilância militar permanente. As estimativas de custo chegam a dezenas de bilhões de dólares, incluindo não só o canal, mas também o corredor logístico associado e medidas de mitigação ambiental.
Quais obras e infraestruturas seriam necessárias para o Canal Ben Gurion?
Para funcionar como alternativa real ao Canal de Suez, o Canal Ben Gurion exigiria um grande conjunto de obras de infraestrutura. Além da escavação principal, seriam necessários sistemas de controle hídrico e proteção ambiental, bem como instalações de apoio portuário e de segurança.
Entre os principais componentes previstos ou discutidos em estudos preliminares, destacam-se:
- Escavação de centenas de milhões de toneladas de rocha e areia;
- Construção de eclusas ou túneis hidráulicos, se necessário;
- Instalação de sistemas de bombeamento e controle de fluxo;
- Monitoramento ambiental para reduzir impactos em ecossistemas locais;
- Estrutura de defesa e segurança permanente ao longo da rota.
Como o Canal Ben Gurion se compara ao Canal de Suez e a outras rotas?
O Canal de Suez, no Egito, tem cerca de 193 quilômetros e liga o Mediterrâneo ao Mar Vermelho sem eclusas, em terreno relativamente plano. Apesar de suas ampliações recentes, continua vulnerável a bloqueios e tem limitações de profundidade e largura para embarcações cada vez maiores.
O Canal Ben Gurion é planejado para ser mais longo, porém mais profundo e com possibilidade de duas vias navegáveis em boa parte do percurso. Em termos econômicos, criaria concorrência direta com Suez pelas tarifas de passagem, deslocando parte das receitas egípcias e alterando o equilíbrio logístico no eixo Europa–Ásia.
Que impacto o Canal Ben Gurion pode ter na economia regional?
Um canal inteiramente israelense cruzando o Negev teria potencial para reconfigurar rotas entre Europa, Ásia e África, oferecendo alternativa em termos de custo, tempo e segurança. Países exportadores de petróleo e gás do Golfo e grandes importadores europeus e asiáticos ganhariam maior flexibilidade em suas cadeias de suprimento.
Do ponto de vista militar e energético, o canal serviria como corredor integrado para oleodutos, gasodutos, cabos de dados e ferrovias, transformando o Negev em um eixo estratégico. O projeto segue cercado de incertezas políticas, financeiras e ambientais, permanecendo mais como cenário de planejamento do que como obra em vias de execução.