Erguida em plena floresta amazônica, às margens do Rio Tapajós, Fordlândia, conhecida como Cidade Fantasma, tornou-se um símbolo de como um grande plano industrial pode se transformar em memória e ruína. Criada para abastecer a indústria automobilística com borracha, a antiga cidade hoje atrai pesquisadores, turistas e moradores em busca de renda, história e compreensão sobre urbanização, trabalho e adaptação na Amazônia.
O que foi Fordlândia e por que Henry Ford criou uma cidade na Amazônia?
A intenção de Henry Ford era garantir fornecimento próprio de látex para pneus e peças automotivas, reduzindo a dependência da borracha asiática. Para isso, firmou-se um acordo com o governo brasileiro que permitia explorar uma extensa área no interior do Pará.
Em vez de apenas plantar seringueiras, o projeto previa uma cidade industrial planejada, com hospital, escola, cinema, áreas de lazer, serrarias, oficinas e bairros residenciais. Hidrantes vermelhos, calçadas alinhadas e casas padronizadas davam o tom de “cidade modelo” cercada por floresta tropical.
Como funcionava o modelo de trabalho e vida em Fordlândia?
A gestão seguia referências norte-americanas, com jornadas de trabalho rígidas, disciplina estrita, cardápios controlados e regras específicas de uso dos espaços comuns. Esse modelo de convivência social pouco dialogava com os costumes amazônicos e gerou tensões constantes.
Normas que proibiam bebidas alcoólicas, determinavam horários de refeições e impunham um estilo de vida padronizado provocaram resistências e conflitos entre os empregados. Há registros de paralisações, confrontos e descontentamento com as imposições da empresa.
Por que a produção de borracha em Fordlândia fracassou?
O fracasso de Fordlândia como polo de borracha esteve ligado a decisões técnicas inadequadas para o ambiente amazônico. As seringueiras foram plantadas em monocultura densa, favorecendo pragas, fungos e doenças que devastaram a produção.
Os desafios logísticos agravaram a situação: o abastecimento dependia de longas viagens fluviais, com atrasos de equipamentos e peças, elevando custos. Com baixa produtividade e gastos crescentes, por volta de meados da década de 1940 o experimento foi encerrado como projeto empresarial.
Como é Fordlândia hoje e o que o visitante encontra na antiga cidade?
Atualmente, Fordlândia é um distrito com cerca de 1.500 habitantes, comércio básico e serviços limitados, distante da imagem de cidade fantasma. As construções originais permanecem como marcas visíveis do passado, em variados estados de conservação e reaproveitamento.
O visitante encontra ruínas industriais misturadas à rotina de uma comunidade amazônica ativa, o que torna útil organizar a visita em alguns pontos de interesse principais:
- Hospital, caixa d’água metálica e galpões industriais parcialmente tomados pela vegetação.
- Vila Americana, com casas reformadas e outras em ruínas, ilustrando diferentes usos ao longo do tempo.
- Orla do Tapajós, pequenos cemitérios e escolas em funcionamento, que mostram a continuidade da vida local.
O canal Mundo Sem Fim ultrapassou 926 mil visualizações com um vlog detalhado sobre a visita a Fordlândia, incluindo o trajeto de barco, dicas práticas de turismo e imagens aéreas dos galpões e casas abandonadas:
Como visitar Fordlândia e por que o lugar segue relevante?
Chegar a Fordlândia exige planejamento, pois o acesso principal é por barco a partir de Santarém ou Itaituba, em viagens que podem levar várias horas. As condições climáticas influenciam a experiência, com praias expostas na seca e áreas alagadas no período chuvoso.
Fordlândia continua chamando atenção por reunir ruínas industriais, paisagem amazônica e uma comunidade que ressignifica o antigo projeto. O distrito tornou-se laboratório vivo para discutir desenvolvimento, meio ambiente, patrimônio e os limites de impor modelos externos à realidade da floresta.