A aprovação da semaglutida 2,4 mg para o tratamento da esteato-hepatite associada à disfunção metabólica reacendeu o debate sobre o papel dos medicamentos no cuidado da saúde do fígado. A condição, conhecida internacionalmente como MASH, é hoje considerada uma das principais doenças hepáticas crônicas, associada ao acúmulo de gordura, inflamação e risco de fibrose, e se insere em um cenário de aumento de sobrepeso, obesidade e diabetes, em que a discussão sobre terapias específicas vem ganhando espaço entre especialistas e serviços de saúde.
O que é MASH e qual é o impacto da semaglutida no tratamento?
A gordura no fígado deixou de ser vista apenas como um achado de exame de imagem e, quando relacionada a alterações metabólicas, passa a ser entendida como parte de um processo sistêmico, com impacto no coração, vasos sanguíneos e outros órgãos. Diversos estudos recentes apontam que pessoas com esteatose metabólica apresentam maior risco de doença cardiovascular, eventos como infarto e AVC, além de progressão para quadros avançados de doença hepática, incluindo cirrose e necessidade de transplante.
Na prática, o problema frequentemente é silencioso, o que favorece diagnósticos tardios, e está geralmente associado à obesidade, resistência à insulina, dislipidemia e outros fatores cardiometabólicos que aumentam o risco de complicações.
Como a semaglutida atua na esteato-hepatite metabólica?
A semaglutida faz parte do grupo dos agonistas do receptor de GLP-1, inicialmente utilizados no tratamento do diabetes tipo 2. Com o tempo, observou-se que essa substância ajudava no controle de peso e na melhora de parâmetros metabólicos, o que motivou estudos específicos em situações nas quais a gordura no fígado e a inflamação estão diretamente ligadas ao metabolismo, como a MASH com fibrose moderada a avançada, porém sem cirrose estabelecida.
No contexto da esteato-hepatite metabólica, a semaglutida imita a ação do hormônio GLP-1, que participa do controle da glicose e da regulação do apetite, favorecendo redução de peso, melhora da sensibilidade à insulina e diminuição de marcadores inflamatórios. Esses efeitos combinados podem reduzir a quantidade de gordura hepática e a atividade inflamatória no fígado, além de impactar favoravelmente o risco cardiovascular global.
Quais são os efeitos da semaglutida na inflamação e na fibrose hepática?
Estudos de fase avançada mostraram que, em adultos com MASH e fibrose em estágios intermediários (sem cirrose), o uso semanal de semaglutida 2,4 mg esteve associado a maior taxa de resolução da inflamação hepática em comparação ao placebo. Em análise intermediária, uma parcela significativa dos pacientes apresentou simultaneamente redução da inflamação e regressão da fibrose, o que tem sido visto como um marco no manejo medicamentoso da doença hepática metabólica.
Os principais benefícios observados com a semaglutida na doença hepática gordurosa de origem metabólica podem ser resumidos em diferentes dimensões clínicas e metabólicas, envolvendo tanto o fígado quanto o sistema cardiovascular:
- Redução de gordura hepática: associada à perda de peso e ao melhor controle metabólico.
- Menor inflamação: refletida em biópsias e exames laboratoriais.
- Impacto na fibrose: em alguns casos, estabilização ou recuo do processo de cicatrização do fígado.
- Potencial benefício cardiovascular: ligado à melhora global do perfil cardiometabólico.
Para quem a semaglutida é indicada?
A indicação da semaglutida na MASH aprovada pela agência reguladora brasileira é direcionada a adultos com esteato-hepatite associada à disfunção metabólica e fibrose moderada a avançada, desde que não haja cirrose. Esse grupo é considerado de alto risco para progressão da doença hepática e para complicações cardiovasculares, e o medicamento é utilizado em associação ao tratamento padrão, que inclui mudanças de estilo de vida e controle rigoroso de fatores como glicemia, colesterol e pressão arterial.
Fora do cenário específico da MASH, a mesma dose de semaglutida 2,4 mg já era autorizada no país para o manejo da obesidade e do sobrepeso com comorbidades, em adultos e em adolescentes a partir de 12 anos, com critérios definidos de índice de massa corporal. Em todos esses contextos, recomenda-se uso sob supervisão médica, com monitorização de efeitos adversos, adesão ao tratamento e resposta clínica, evitando automedicação e uso indiscriminado do fármaco.
- Avaliação detalhada do fígado, incluindo exames de imagem e, quando necessário, biópsia.
- Análise do grau de fibrose e exclusão de cirrose antes do início da terapia.
- Revisão de outras doenças associadas, como diabetes, dislipidemia e hipertensão.
- Discussão sobre mudanças de hábitos, alimentação e atividade física.
- Acompanhamento de longo prazo para verificar segurança e eficácia.
Quais são os desafios e as perspectivas no tratamento da gordura no fígado?
O avanço da semaglutida para doença hepática gordurosa abre espaço para novas estratégias terapêuticas, mas também expõe desafios importantes. O custo do medicamento, o acesso em sistemas públicos e privados, a necessidade de uso racional e a garantia de acompanhamento especializado são pontos centrais levantados por entidades médicas, que reforçam que nenhum fármaco substitui intervenções sobre alimentação, sedentarismo e controle de peso.
Pesquisas de longo prazo, com conclusão prevista para o fim desta década, devem trazer respostas adicionais sobre o impacto da semaglutida na redução de desfechos clínicos como cirrose descompensada, necessidade de transplante e mortalidade relacionada ao fígado. Até lá, o medicamento tende a ser incorporado de maneira progressiva em protocolos de tratamento para estágios mais avançados de MASH, sempre dentro de uma estratégia integrada de manejo metabólico e cardiovascular.