Do fracasso à liderança mundial: a incrível saga do algodão brasileiro

Do fracasso à liderança mundial: a incrível saga do algodão brasileiro

O algodão brasileiro é líder mundial em produtividade, alcançando quase o dobro dos principais concorrentes, os agricultores americanos. A média nacional no cultivo não irrigado está em 1.780 kg por hectare, contra apenas 941 kg dos vizinhos do hemisfério Norte. O País é atualmente o 2º maior exportador da pluma e o 4º maior produtor mundial, com tendência de subir no ranking. É o número 1 no fornecimento de algodão responsável BCR (Better Cotton Iniciative), com 42% de toda a certificação global, que garante conformidade com normas ambientais, saúde e segurança dos trabalhadores.

Tudo isso contrasta com o fato de que, há menos de três décadas, o algodão brasileiro estava “na lona”, praticamente abandonado e desacreditado.

Na época dos presidentes Sarney e Collor, uma sucessão de fatores levou o algodão a uma crise tão aguda que a cultura chegou a ser dada como perdida em terras tropicais, desencorajada pelo próprio governo e dizimada pelo ataque de um besouro originário da América Central — o infame bicudo-do-algodoeiro. Como entender que, de terra arrasada para a pluma, o País esteja hoje a caminho de liderança nas exportações globais, com receita anual de US$ 3,77 bilhões?

Algodão saiu de sistema semifeudal para produção tecnológica

Até o início dos anos 90, ainda imperava na cadeia produtiva um sistema semifeudal, com baixa produtividade, colheita manual e prejuízos recorrentes pela pouca resistência do algodão à chuva no ciclo final da planta. Para além de Paraná e São Paulo, o cultivo alcançava destaque nos estados nordestinos, mas era feito num arranjo de relações trabalhistas que não resistiu aos direitos instituídos pela Constituição de 1988. Era comum que 10, 50 e até 100 famílias morassem nas fazendas de algodão, em sistema de meeiros com o dono da terra.

O proprietário provia moradia e meios para produção — tratores, sementes, fertilizantes e pesticidas — e o salário do trabalhador correspondia a uma parte da colheita, descontadas as despesas. A planta do algodão permitia o consórcio com cultivos de subsistência como milho e feijão, favorecendo o autoabastecimento. Funcionou por décadas, mas o frágil sistema desmoronou após 1988.

Estima-se que entre 4 e 5 milhões de empregos no Nordeste tenham se perdido após a derrocada do algodão. Mas não foi apenas o aperto da legislação trabalhista que levou a isso. Poucos anos antes, o terreno para o desastre já havia sido preparado pela chegada ao país da praga do bicudo-do-algodoeiro. O besouro se instalava nas plantas perenes e ali “firmava residência”, safra após safra, comprometendo até 70% da produção. O inseto pôs em xeque o modo de cultivo de mais de um século, em que, logo após a colheita, o gado entrava na lavoura e se alimentava da massa verde que restava, fazendo a poda para renovação da planta no ciclo seguinte.

Governo chegou a proibir o cultivo do algodão arbóreo

Para controlar o bicudo, Eleusio Curvêlo Freire, então pesquisador da Embrapa, lembra que os técnicos calculavam que seriam necessárias 12 aplicações de inseticidas por ano, contra uma ou duas até então. O governo então decidiu proibir o cultivo do algodão arbóreo (perene), por julgar que seria impossível conviver com o bicudo. Com isso, secou o crédito nos bancos e os meeiros foram colocados para fora das propriedades.

“De um milhão de hectares plantados com algodão arbóreo no Nordeste, foi-se para o zero. Essa mão de obra retirada das fazendas foi para a periferia das cidades. Esse pessoal é que formou o MST, que formou a mão de obra da construção civil. Muitos proprietários passaram a criar apenas gado. Em vez de plantar algodão, passaram a plantar capim, que não precisava de mão de obra”, conta Freire.

Na época, Freire pesquisava na Embrapa uma variedade mais moderna, que permitiria conviver com o bicudo. “Mas o governo federal já havia decidido”, lamenta o engenheiro-agrônomo. Pesou também o lobby da indústria têxtil, que levou Brasília a zerar as taxas de importação, abrindo as portas para a entrada do algodão americano, subsidiado na origem e que podia ser comprado com prazo de até dois anos.

De grande produtor a grande importador de algodão

De superavitário, o Brasil se tornou o segundo maior importador de algodão do mundo. “O governo federal ajudou a acabar com o sistema de parceria na produção de algodão no Nordeste, porque disse que era trabalho escravo, e a indústria ajudou a acabar com a cadeia, por fazer lobby para importação”, avalia Eleusio Freire.

No Sul, que desde 1975 liderava o cultivo de algodão, a derrocada foi igualmente rápida, mas com outro pano de fundo. O Paraná chegou a cultivar 706 mil hectares da pluma em 1994, e poucos anos depois já não produzia nem para atender a indústria local. O pesquisador aposentado do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Wilson Paes, considera que o que mais pesou na quase extinção da cultura não foi o inseto, mas a crise da mão de obra, a estagnação dos preços e as perdas seguidas por chuva na colheita — tudo isso coroado pela ação do bicudo e pela abertura do mercado ao algodão subsidiado dos Estados Unidos (anos mais tarde o Brasil ganharia uma ação movida na OMC por causa disso).

“A partir da década de 90 a mão de obra já era escassa. Muitos pequenos produtores rurais foram para as cidades e para outras regiões. A mão de obra passou a ser urbana, e começou a ficar muito cara e ruim. E com produtividade baixa. O custo da colheita chegou a bater 30% do valor do produto. O lobby da indústria têxtil, que era muito forte, conseguiu junto ao governo federal autorização para importação de algodão subsidiado, a prazo e com juros muito baixos. Isso fez com que a nossa safra encalhasse. Não havia estímulo, começou a sobrar algodão, e o produto desvalorizou demais”.

Na safra 94–95, uma nova doença fúngica, chamada Mancha de Estenfílio, atacou o algodão paranaense, o que foi a gota d’água para muitos produtores abandonarem de vez a cultura, migrando de vez para a soja e o milho.

Algodão teve uma “mãozinha” do Rei da Soja

Hoje aposentado do serviço público, mas ainda atuando como consultor, o pesquisador Eleusio Freire lembra que o caminho para o retorno triunfal do algodão passou pela visão de futuro do então rei da soja, Olacyr de Moraes. Buscando uma cultura para fazer rotação com soja e milho no Cerrado, por temer esgotamento do solo, Moraes custeou pesquisas da Embrapa e cedeu a própria fazenda para experimentos.

Freire desenvolveu a variedade CNPA Ita 90, resultado de melhoramentos genéticos para chegar a uma planta talhada para as condições de solo, clima e altitude do Centro-Oeste, e, não menos importante, para a colheita mecanizada. A seleção genética do passado escolhia cultivares cujo capulho (fruto maduro) saía facilmente, para favorecer a colheita manual. Com a mecanização, a lógica foi invertida, e passou-se a buscar variedades com capulhos mais resistentes, que não caem do pé, por exemplo, quando há vários dias de chuva perto da colheita.

Após sucessivos experimentos, o custo de produção da cultivar CNPA Ita 90 se estabilizou em 75 arrobas por hectare, para uma colheita que chegava a 400 arrobas por hectare. Além de sobra de produtividade, tinha preço competitivo. “A indústria nacional não acreditava, mas começou a ver que a qualidade do algodão do Mato Grosso era igual ao dos Estados Unidos e da Austrália”, conta Freire. Antes mesmo de convencer os empresários têxteis locais, os produtores de Mato Grosso, organizados em associação, começaram a exportar algodão. E não pararam mais. Atualmente, Mato Grosso e Bahia respondem por 90% da produção nacional. Mesmo sendo um dos maiores mercados para a pluma, o Brasil tem excedentes que permitem exportar 75% do volume colhido.

Produção de algodão dobrou no país em menos de 5 anos

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Julio Busato, conversou com a reportagem enquanto acompanhava uma comitiva de estrangeiros compradores do algodão brasileiro — industriais de Bangladesh, Coreia do Sul, Paquistão, Vietnã, México e Turquia. Eles vieram conhecer o sistema de produção e os laboratórios de análise de qualidade da pluma. Passaram pelo Mato Grosso, Brasília e Bahia. “São 21 empresários de indústrias têxteis que representam a compra de 900 mil toneladas de algodão, quase metade de tudo o que exportamos. E está todo mundo aqui dentro de um ônibus. Temos que cuidar muito bem deles, já pensou?”, brincou Busato.

Nos últimos cinco anos, o Brasil dobrou a produção de algodão. E espera dobrar novamente, em uma década. “Daí vamos nos tornar os maiores produtores mundiais. Os mercados já estão abertos, participamos praticamente de todos. Porém, só participamos com 23%, e queremos uma fatia maior”, afirma Busato.

Mais produção de pluma, em muito menos terra

O novo ciclo do algodão se encaixa num fenômeno da agricultura brasileira apelidado pela Embrapa como efeito “poupa-terra”, devido ao avanço da pesquisa e da tecnologia. O chefe-geral da Embrapa Algodão, Alderi Emídio de Araújo, lembra que até os anos 90 eram cultivados 3 milhões de hectares no semiárido e mais 1 milhão no Paraná e em São Paulo, apenas para abastecer o mercado interno. “Hoje, a gente planta 1,5 milhão de hectares, abastecemos o mercado interno e somos ainda o segundo exportador mundial. Estamos poupando áreas, que podem ser preservadas e também disponibilizadas para outras culturas, inclusive alimentares”, sublinha.

O produtor João Carlos Jacobsen, paranaense de Clevelândia radicado há 40 anos no Oeste da Bahia, que já presidiu a associação dos cotonicultores por duas vezes, diz que a diferença do novo ciclo do algodão está na qualidade e na credibilidade. A colheita é 100% automatizada e drones fazem monitoramento das áreas e condições climáticas. Desde os anos 2.000, os produtores abriram 11 laboratórios estaduais de análise de qualidade das fibras, classificando o produto conforme padrões de comprimento, resistência, brilho, cor e pureza. Um laboratório central de referência, em Brasília, atesta que todos os laboratórios regionais tenham a mesma calibragem de máquinas e exames.

Virada do algodão que já foi um dos piores do mundo

Para atender melhor os clientes asiáticos, há dois anos a Abrapa mantém um escritório em Singapura. “Mudar a imagem da cultura que os países têm daquilo que é produzido em outro país, leva anos e custa caro. Hoje já podemos nos orgulhar do algodão brasileiro, que saiu da imagem de um dos piores do mundo, com muita contaminação, sujeira e variação de qualidade, para um dos melhores do mundo. Disputamos par e passo com os Estados Unidos e a Austrália, saímos de maiores importadores para o segundo maior exportador. É importante o governo dar suporte, mas, mais importante, é que a cadeia produtiva esteja focada no que está fazendo, em entregar um produto com qualidade”, assegura Jacobsen.

Hoje, mais de mil lojistas do País participam da iniciativa Sou de Algodão. Por trás da etiqueta, criada em 2015 pela Abrapa, uma tecnologia de blockchain rastreia cada peça de roupa, desde o plantio do algodão certificado até as vitrines das lojas. O próximo passo será acrescentar um QRCode para que o consumidor percorra pela internet o percurso da fibra, e verifique em que condições ambientais e sociais cada fardo de algodão foi produzido. Alguma dúvida de que o algodão é um dos melhores exemplos do significado de “dar a volta por cima” na agricultura brasileira?.

Fonte: GAZETA DO POVO




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