Kiss: ‘Primeira vez que nos dão voz’, diz sobrevivente no julgamento 

Kiss: ‘Primeira vez que nos dão voz’, diz sobrevivente no julgamento 

Maike Ariel dos Santos disse, durante sessão, que as vítimas do incêndio foram, por vezes, responsabilizadas por estar na boate

O segundo depoimento do tribunal do júri do caso da boate Kiss deste sábado (4) sensibilizou familiares de vítimas e sobreviventes da tragédia da casa noturna, em Santa Maria (RS), que estavam na plateia do plenário do Foro Central de Porto Alegre. Enquanto o jovem contava que o julgamento era o primeiro momento em nove anos que ele se sentida ouvido, de fato, outras vítimas se emocionaram.

“Foi a primeira vez que nos deram uma voz ativa de poder estar aqui contando. Contavam pela gente ou nos culpavam pela situação”, disse Maike Ariel dos Santos, 29 anos, ao juiz Orlando Faccini Neto. A fala do sobrevivente emocionou Kellen Ferreira, segunda vítima ouvida em plenário.

No primeiro intervalo da sessão, Kellen se aproximou de Maike para prestar solidariedade. Maike, então, perguntou como a jovem estava. Durante todo o tempo, ela, que teve os braços queimados e uma perna amputada, recebeu o apoio de amigos e membros da associação de vítimas. Maike relatou ainda que sente “impotência” por não ter conseguido salvar os amigos que estavam na festa.

“Sentimos a culpa de elas não terem tido o momento de se salvar”, afirmou ele.

A noite da tragédia

Maike relata que, na noite do dia 27 de janeiro de 2013, foi ao aniversário de uma amiga na boate Kiss. “Não era meu estilo musical, mas eu fui por ela”, diz. O jovem lembra ainda que não chegou a esperar na fila para entrar, porque estava com o nome na lista de convidados da aniversariante.

“Lembro que estava muito cheio e o deslocamento era muito ruim. Não sei o tempo que passei lá. Olhei para cima e vi uma fumaça que confundi com gelo seco. Pensei que estava longe do palco para ser gelo seco”, contou.

O sobrevivente afirmou também que não conhecia bem a boate. No momento do incêndio, o jovem recorda que escutou palavras de ordem. “Ouvi um ‘sai, sai, sai’ e um ‘é fogo’. Quando ouvi a palavra fogo, pensei que alguma coisa não estava certa e, então, de mãos dadas fomos andando. Até a primeira porta estava muito lotado para caminhar. Em toda a boate tinha muita gente em volta”, afirmou.

Maike disse que quando chegou perto do bar da boate, a fumaça começou a atingir seus olhos mais fortemente. “Queimava, ardia demais.” Ele conta que perdeu a visão em decorrência do incêndio. “Eu achava que estava indo para a saída, mas não via absolutamente nada. Teve um momento que eu apaguei dentro. Quando retomei os sentido estava lá fora sentado na frente da boate”, recordou.

O jovem disse ter ficado em coma por uma semana. “Chegou um momento que falaram para a minha mãe que não tinha mais o que fazer pelo seu filho.”

Hoje, Maike é formado em desenho industrial. Ele disse que teve dificuldades para estudar o conteúdo das aulas da faculdade. “Enquanto uma pessoa estudava uma única vez eu tinha que estudar quatro vezes para assimular”, disse ele, que sentia receio de não conseguir desenhar em função das sequelas das queimaduras nas mãos.

Além das marcas físicas, Maike disse ter se tratado por mais de um ano com psicólogos. “Ainda tenho resquícios de traumas. Sempre disse que o meu tratamento foi conhecer o pai das minhas amigas. Perdi minhas amigas, mas tive o conforto dos pais das minhas amigas.”

O jovem citou ainda situações cotidianas que relata ter dificuldades para enfrentar no dia a dia. “Em Santa Maria, tinha uma feira do livro, mas eu evitava porque fiquei com trauma de aglomeração. A combustão dos carros no trânsito me lembrava o incêndio. Usei malhas compressivas para a pele não crescer de maneira desforme”, revela. “Colocaram a culpa nos pais, nos sobreviventes. Esse foi o pensamento crítico das pessoas.”

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